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Estudo financiado pela UE concluiu que alimentos cultivados em hortas domésticas são uma ameaça ambiental?

União Europeia
O que está em causa?
Publicação nas redes sociais garante que uma investigação académica suportada por Bruxelas descobriu que as plantações para autoconsumo tem uma pegada carbónica superior às das grandes explorações, sendo por isso um perigo para o ambiente. Verificação de factos.
© Shutterstock

Um estudo financiado pela UE também declarou que os alimentos cultivados em casa são uma ameaça climática [versão traduzida].” Após o texto, o tweet remete para a sua fonte: o link de uma notícia do site búlgaro “Obektivno”, que se intitula um “meio de comunicação independente para jornalismo investigativo, notícias sem censura e todos os pontos de vista”.

Apesar do conteúdo da publicação no X ser exatamente igual ao título da suposta notícia, ao começar a ler esta, logo no seu primeiro parágrafo, percebe-se que o âmago da informação é diferente do título (primeira frase), sucedendo-se uma interpretação em nada sustentada anteriormente (segunda frase):

Um estudo da Universidade de Michigan afirma que os alimentos cultivados localmente produzem cinco vezes mais emissões de carbono do que os métodos agrícolas industriais. Em outras palavras, as hortas privadas podem ser consideradas uma ameaça ao meio ambiente.

O site cita, em seguida, uma notícia sobre o estudo do Telegraph. Ora, pesquisando por esta notícia, que é de 22 de janeiro deste ano, constata-se que o seu título é “Pegada de carbono dos alimentos produzidos localmente é cinco vezes maior do que a dos cultivados convencionalmente”, mas em nenhuma parte do seu conteúdo se refere haver “uma ameaça para o meio ambiente”, apesar de ser mencionado que as “hortas individuais” provocam um impacto no meio ambiente muito superior ao das “explorações agrícolas tradicionais”.

E o que diz afinal o estudo?

Conforme refere o jornal de fact-checking búlgaro factcheck.bg, o nome do estudo em causa é “Comparando as pegadas de carbono da agricultura urbana e convencional”. Foi liderado (mas não realizado em exclusivo) por investigadores da Universidade Michigan e publicado na revista científica Nature a 22 de janeiro deste ano.

A informação essencial sobre esta investigação está quer na respetiva página da Nature, quer numa notícia do The University Record – o canal escrito oficial de informação do corpo docente da Universidade de Michigan.

E por estas fontes é possível constatar, desde logo, que o estudo teve, de facto, um apoio da União Europeia (UE) – do programa Horizon 2020 –, mas está longe de ser um trabalho exclusivamente financiado pela UE, como é sugerido na publicação e no site agora verificados, já que teve também o suporte de instituições como o Conselho de Investigação Económica e Social do Reino Unido, a Agência Nacional de Investigação Francesa e a Fundação Nacional de Ciência dos EUA, entre outros.

Quanto ao conteúdo do estudo, verifica-se que o seu âmbito estabelece uma comparação entre dois tipos de agricultura – a agricultura urbana e a agricultura tradicional – e não entre a produção em hortas individuais/autoconsumo e aquela que é realizada para fins comerciais. Naturalmente que em território urbano há uma maior percentagem de hortas para autoconsumo e que no tecido rural/não urbano é que estão localizadas as grandes explorações, mas a comparação incidia sobre o local e natureza de cultivo (urbano vs rural) e não sobre o fim desse cultivo (autoconsumo vs venda). Mas não se pode falar dos mesmos conjuntos: há pequenas explorações em zona urbana e, principalmente, cultivo para consumo próprio em zona rural.

Quanto aos resultados e interpretações do estudo, em momento algum se classifica como uma “ameaça climática” ou “ameaça ambiental” os alimentos (no caso legumes e frutas) cultivados em hortas particulares ou sequer em agricultura urbana. A frase-chave das conclusões é esta: “Os resultados revelam que a pegada de carbono dos alimentos provenientes da AU [Agricultura Urbana] é seis vezes maior do que a da agricultura convencional (420 gCO 2 e versus 70 gCO 2 e por porção)”.

Porém, a investigação faz esta ressalva, que evidencia ainda mais o caráter inverosímil do que foi escrito na publicação no X e no site que o inspirou: “No entanto, algumas culturas da AU (por exemplo, tomate) e locais (por exemplo, 25% das hortas geridas individualmente) superam a agricultura convencional. Estas exceções sugerem que os praticantes de AU podem reduzir os seus impactos climáticos cultivando culturas que são tipicamente cultivadas em estufas ou transportadas por via aérea, mantendo locais de AU durante muitos anos e aproveitando a circularidade (resíduos como fatores de produção).

É, por conseguinte, falso que o estudo – financiado pela União Europeia, mas também por diversas outras instituições – tenha concluído que os alimentos cultivados em hortas domésticas sejam uma ameaça ambiental.

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UE

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “EUROPA”. O projeto foi cofinanciado pela União Europeia no âmbito do programa de subvenções do Parlamento Europeu no domínio da comunicação. O Parlamento Europeu não foi associado à sua preparação e não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores do programa. O Parlamento Europeu não pode, além disso, ser considerado responsável pelos prejuízos, diretos ou indiretos, que a realização do projeto possa causar.

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Avaliação do Polígrafo:

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