Em artigo que está a ser partilhado por milhares de pessoas nas redes sociais alega-se que o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA publicou um relatório no qual “mostra que as máscaras não são eficazes na prevenção da propagação da Covid-19, mesmo para as pessoas que as usam consistentemente”. No texto destaca-se que “71% dos casos de coronavírus no estudo vieram de pessoas que relataram ‘sempre’ usar uma máscara”, apresentando depois uma tabela com os supostos dados e remetendo (através de uma hiperligação) para um estudo do CDC que foi publicado no dia 11 de setembro de 2020.

A tabela apresentada faz parte do estudo do CDC, mas há várias questões e dados mal interpretados no artigo em causa. Passamos a explicar.

A equipa de investigadores reuniu dois grupos de estudo com base nos pacientes sintomáticos que se dirigiram a várias instituições de saúde norte-americanas. De um lado ficaram 154 pacientes que testaram positivo à Covid-19 e, do outro, 160 que testaram negativo, organizados de acordo com factores de idade, sexo e localização.

A cada grupo foram feitas diversas perguntas, nomeadamente sobre quão frequentemente utilizaram máscara nos últimos 14 dias. Segundo os dados recolhidos, 70,6% do grupo de estudo afirmou utilizar máscara sempre, enquanto 74,2% do grupo de controlo afirmou o mesmo. A maior diferença entre os dois grupos foi verificada na ida a restaurantes: 40,9% dos doentes infetados afirmaram ter ido a restaurantes contra 27,7% dos doentes não infetados.

“De facto, se as pessoas olharem para isto e virem este resultado, têm razão: as pessoas que tinham o teste negativo e as pessoas que tinham o teste positivo diziam, na mesma percentagem, que tinham utilizado sempre máscara nos 14 dias antes de ficarem sintomáticos”, nota Tiago Alfaro, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, em declarações ao Polígrafo.

No entanto, o objetivo do estudo não era comprovar a eficácia da utilização de máscaras e os investigadores não concluíram, de todo, que a máscara não protege contra a Covid-19. Em várias partes do estudo, aliás, os autores sublinham a importância dessa medida de proteção, associada ao distanciamento físico ou social.

“O objetivo do estudo era ver se [os pacientes que testaram positivo] tinham diferenças de comportamento em termos de ir a restaurantes, ir a bares, ter tido contacto com alguém que soubessem que tinha Covid-19”, explica Alfaro, considerando que é um trabalho “de qualidade e até interessante”. Os resultados demonstraram que os doentes infetados pelo novo coronavírus tinham maior probabilidade de ter estado em bares ou restaurantes, ou seja, em “locais em que habitualmente - e isso está referido no artigo - não se utiliza máscara para comer ou, muitas vezes, quando se está num bar a beber”.

Nas conclusões do estudo também não há qualquer referência à falta de eficácia das máscaras para proteger a população contra a Covid-19. Os investigadores apuraram que “o contacto próximo com pessoas que se sabe terem Covid-19 ou irem a localizações que oferecem opções de comida e de bebida no local foram associadas a positivos de Covid-19. […] Adultos com resultados de testes de SARS-CoV-2 positivos tinham aproximadamente o dobro da probabilidade de reportar jantares em restaurantes do que os com resultados de testes negativos”.

Além disso, o estudo foi realizado com base na memória dos participantes, em que os pacientes já conheciam os resultados dos testes, o que pode gerar algum enviesamento das respostas sobre exposição comunitária ou contactos próximos. “Um estudo que fosse mesmo para ver se a máscara protege, tinha de se ver se as pessoas estavam, de facto, a usar máscara ou não. Neste estudo eles perguntaram a alguém que já sabe o resultado do teste se nos 14 dias antes de ficar sintomático utilizava sempre máscara ou não”, ressalva Alfaro. Essa e outras limitações estão patentes no artigo publicado pelo CDC, no qual é ainda referido que a amostra do estudo pode não ser representativa da população norte-americana.

De resto, Alfaro defende que o principal objetivo da utilização de máscara consiste em proteger os outros. “A máscara evita que nós libertemos aquelas gotículas, que são a principal via de transmissão da Covid-19. Não é tão claro que a máscara nos proteja a nós. E, acima de tudo, nunca a máscara nos vai tornar invencíveis nem imunes ao vírus em qualquer situação, especialmente naquelas situações onde nós acabamos por tirar a máscara, como os bares e restaurantes”, afirma.

Em Portugal, a utilização de máscara passou entretanto a ser obrigatória na via pública, sempre que não for possível manter os dois metros de distanciamento para outras pessoas.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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