"Os estivadores do porto de Nápoles unem-se aos estivadores de Livorno e recusam carregar os navios com armas para Israel, em solidariedade com a Palestina. Grandes". Esta é a mensagem da publicação em causa, traduzida a partir do original em língua castelhana. Mostra também uma fotografia de supostos estivadores numa sala em que são visíveis bandeiras da "Ação Antifascista de Génova" e do "Coletivo Autónomo de Trabalhadores Portuários".

Esta publicação foi denunciada como sendo falsa ou enganadora, tendo o seu conteúdo suscitado algumas dúvidas relativamente ao fornecimento de armas por parte de Itália a Israel. A pedido de vários leitores, o Polígrafo verifica.

De facto, durante o fim-de-semana de 15 e 16 de maio, vários órgãos de comunicação social italianos noticiaram aquilo que teria sido um bloqueio, por parte de um grupo de estivadores, de um carregamento de armas com destino a Israel. O navio partiria, assim, do porto de Livorno, na Itália, seguindo com destino ao porto israelita de Ashdod.

A suposta reivindicação foi tida como uma demonstração de solidariedade para com o povo palestiniano, numa altura em que a Faixa de Gaza era atacada via aérea por Israel. Ainda assim, as consequências reais deste suposto bloqueio não corresponderam às expectativas, desde logo porque não houve efetivamente um entrave nos carregamentos.

O objetivo, mais do que proibir o transporte de armas para Israel, consistia em monitorizar a sua distribuição nos portos italianos. Esta reivindicação dos estivadores italianos, aliás, é anterior ao mais recente confronto no Médio Oriente. Vejamos a linha temporal dos acontecimentos.

A 14 de maio deste ano, a União Sindical de Base (USB) publicou um comunicado no qual assegurava que o porto de Livorno não seria "cúmplice do massacre da população palestiniana", dizendo "não" ao desembarque das armas para Israel.

"Graças ao relatório do Coletivo Autónomo de Trabalhadores Portuários de Génova e da associação The WeaponWatch, sabemos que no interior [do navio] há contentores carregados de armas e de explosivos com destino ao porto israelita de Ashdod. Armas e explosivos que serão utilizados ​​para matar a população palestiniana".

Ora, o relatório divulgado pelas duas entidades mencionadas tinha apurado a existência de "cargas de balas de alta precisão" com destino ao porto de Ashdod, em Israel, que teriam sido carregadas no terminal de Génova e que passariam por Livorno.

"Ainda não sabemos se os contentores de armas e explosivos serão também carregados no nosso porto", salvaguardou a USB, "mas certamente não seria a primeira vez que isso aconteceria".

"Além da questão da guerra, há também um problema objetivo de segurança para os trabalhadores e para a população. Nesse sentido, enviámos relatórios urgentes à Autoridade Portuária, à Capitania dos Portos e à Medicina del Lavoro, para que procedam imediatamente às devidas verificações", informou a USB.

"Amanhã, a União Sindical de Base estará nas ruas de Livorno em solidariedade com a população palestiniana, para pedir o fim imediato do bombardeamento de Gaza e da 'expropriação' de casas palestinianas que viveram sob ocupação militar durante anos. Ao mesmo tempo, lançamos uma campanha de consciencialização junto dos trabalhadores do porto de Livorno, de forma a que o exemplo corajoso que veio do porto de Génova também seja proposto no nosso território", antecipou.

No entanto, segundo noticiou o jornal italiano "Il Tirreno" a 16 de maio, o navio em causa, embora tenha passado por Livorno, não foi carregado ou descarregado naquele porto - como de resto previram os estivadores no comunicado - impossibilitando qualquer bloqueio.

Depois de Livorno, o navio terá passado pelo porto de Nápoles, entre 15 e 16 de maio, também ali sem qualquer carregamento. Ainda assim, os trabalhadores portuários de Nápoles, do sindicato SiCobas, manifestaram-se contra o "trânsito de armas" através dos seus portos, armas essas que "ajudam a alimentar guerras e lucros contra o povo palestiniano, que sofre há décadas uma repressão implacável por parte do Estado de Israel".

  • Conflito no Médio Oriente provocou 22 vezes mais mortes na Palestina do que em Israel?

    Está a ser divulgado nas redes sociais um gráfico que mostra o suposto "custo humanitário do conflito entre Israel e a Palestina", expresso em número de mortes e feridos em cada uma das regiões. Segundo os dados, desde 2008 e até 2020, o território palestiniano somou 22 vezes mais mortes do que Israel. A pedido de vários leitores, o Polígrafo verifica.

O sindicato termina ainda com um manifesto contra o Governo italiano: "Estamos incondicionalmente ao lado do povo palestiniano, contra a ocupação e a agressão sionista em Gaza. Denunciamos a cumplicidade do Governo italiano e de quase todas as forças parlamentares com a agressão israelita. Denunciamos a aprovação silenciosa do Estado italiano ao trânsito de armas de guerra israelitas através dos nossos portos. As nossas mãos não ficarão cobertas de sangue para apoiar as vossas guerras".

Esta medida acabou por ser incentivada pelo IDC (International Dockworkers Council), a maior associação sindical de estivadores e de trabalhadores dos portos, tendo alcançado uma dimensão internacional.

No dia 19 de maio, esta associação, cita uma notícia da RTP, condenava "firmemente" o massacre do povo palestiniano "às mãos de Israel", deixando um "apelo urgente à paz e ao diálogo". Além disso, a IDC incentivou ainda os seus membros a "boicotar os carregamentos e transportes de armas com destino a portos israelitas".

Assim, embora a intenção fosse recusar o embarque de armas com destino a Israel, quer os trabalhadores portuários de Livorno quer os de Nápoles não tiveram oportunidade de o fazer, até porque em nenhum daqueles portos houve cargas e descargas, tendo sido apenas lugares de passagem para o navio que acabou por chegar ao porto de Ashdod, em Israel.
No entanto, é inegável a repercussão desta tomada de posição dos estivadores que acabou por desencadear, como vimos, vários apelos de sindicatos no sentido de impedir possíveis carregamentos de armas a serem utilizadas para bombardear território palestiniano.

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Avaliação do Polígrafo:

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