Tendo por base uma suposta notícia do jornal britânico "The Independent", uma publicação de 4 de março, divulgada no Facebook, alerta para o facto de um navio-tanque russo que transportava gás natural não ter sido descarregado pelos estivadores britânicos em Kent, no Sudeste da Inglaterra. Por outro lado, critica-se, Portugal terá recebido gás natural russo nesse dia.

Ora, recuando até ao dia 28 de fevereiro, o jornal "Expresso" informou então que Portugal iria voltar a receber gás natural da Rússia no dia 4 de março. "Depois de quatro meses sem receber gás russo, o terminal de Sines voltará, esta semana, a acolher um navio proveniente da Rússia, na primeira descarga de gás desta origem desde que a Ucrânia foi atacada e a Rússia alvo de um conjunto de sanções económicas. O navio chama-se 'Vladimir Vize', transporta gás natural liquefeito (GNL), e tem chegada prevista a Sines na próxima sexta-feira, 4 de março. Será a primeira descarga de gás russo em Portugal em mais de três meses", lê-se no artigo.

Tal como o Polígrafo já verificou, Portugal não tem uma grande dependência da energia russa, ao contrário de muitos outros países da União Europeia. Em Portugal, a taxa de dependência de petróleo bruto, gás natural e combustíveis sólidos rondou, em 2019, os 74%, sendo que no ano de 2000 era superior a 85%. Tal como informa este boletim do Eurostat, a União Europeia depende principalmente da Rússia para as importações dos três tipos de energia, sendo a Noruega o segundo principal fornecedor de petróleo bruto e gás natural.

Em 2020, e segundo esta infografia do Eurostat, o gás natural importado por Portugal tinha origem maioritária na Nigéria, seguida pelos Estados Unidos da América (EUA) e só depois pela Rússia. O cenário é parecido para países como a Alemanha, a França e a Itália, onde a Rússia estava pelo menos nas três primeiras posições de fornecedores de gás natural em 2020.

Ainda assim, é um facto que em Portugal o gás proveniente da Rússia representava, em 2020, apenas cerca de 9,7% de todas as importações. Na verdade, quase 54% do gás natural importado por Portugal vem da Nigéria, o principal fornecedor do país também em 2019. Com apenas 19% do peso das importações portuguesas estão os EUA, seguindo-se a Rússia e a Argélia.

De acordo com dados da REN, citados pelo jornal "Expresso", outubro de 2021 foi o último mês em que o sistema nacional de gás natural recebeu gás russo. Nesse mês, 26,5% do gás natural importado por Portugal veio da Rússia, 50,7% da Nigéria e 14,6% dos EUA.

  • Cerca de 41% das importações de gás natural da União Europeia têm origem na Rússia?

    O objetivo consiste em explicar por que motivo não haverá uma "invasão russa em larga escala da Ucrânia", ao contrário do que "os EUA dizem". Em publicação de 15 de fevereiro no Facebook destaca-se um gráfico que "mostra a dependência europeia do gás russo", ou mais concretamente que 41% das importações de gás natural da União Europeia têm origem na Rússia. Será verdade?

O navio-tanque "Vladimir Vize" atracou no último sábado no Porto de Sines, para descarga de gás natural, numa ação contestada pelo movimento Climáximo que exigia a rejeição do carregamento de gás por parte da autoridade portuária.

E quanto ao Reino Unido, o que aconteceu realmente? De acordo com o jornal "The Independent", em notícia de 4 de março, os estivadores britânicos não descarregaram um navio-tanque russo com gás natural que chegou ao Porto de Kent, "forçando-o a atracar noutro lugar". O navio "transportava gás natural liquefeito" e os trabalhadores portuários recusaram descarregá-lo como demonstração de solidariedade para com a Ucrânia.

Atualmente, no Reino Unido, está em vigor uma proibição do Governo relativamente a todos os navios associados à Rússia e que cheguem aos portos britânicos. Ainda assim, informa o mesmo jornal, a proibição "não se aplica à origem da carga".

Em declarações ao jornal "The Guardian", a 3 de março, Matt Lay, sindicalista do Unison, defendeu que o Governo britânico tem que corrigir esta falha na lei o mais rapidamente possível: "Embora pareça que a intervenção do sindicato tenha sido bem-sucedida, com os navios a serem rejeitados, há um problema fundamental que permanece. O Governo deve agir imediatamente para impedir que mercadorias russas continuem a chegar ao Reino Unido sob a cobertura de outros países."

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