“Aqueles vídeos em que perguntávamos onde eram? Chegaram a Portugal. Os novos portugueses chegaram para casar com as vossas filhas, com as vossas netas, seguindo os ensinamentos do profeta”, denuncia-se numa publicação nas redes sociais.
Em causa estão imagens que mostram aquilo que aparenta ser um grupo a entoar cânticos islâmicos em euforia. Mas terão sido mesmo gravadas em Portugal?
Sim, o vídeo foi captado a 6 de julho – domingo – no Laranjeiro, em Almada, durante as celebrações de Ashura, dia de especial significado para os muçulmanos xiitas em que se recorda o martírio do Imã Hussain, neto do profeta Maomé.
“É importante esclarecer que o que aconteceu no domingo não foi um protesto religioso e não teve absolutamente nada a ver com imigração ou política. Foi uma comemoração pacífica e histórica dos acontecimentos da Ashura – o dia que marca o martírio do Imã Hussain, o neto do Profeta Maomé, há mais de 1400 anos”, explicou ao Polígrafo a Associação Lady Fatemah, promotora do evento.
Hussain foi assassinado em 680 d.C, juntamente com a família e companheiros, depois de se recusar a jurar fidelidade ao califado omíada. Hoje, é visto pelos muçulmanos xiitas como um “símbolo de resistência contra a tirania e um farol de esperança para a justiça”.
Todos os anos, milhões de xiitas saem às ruas para lembrar o sacrifício do imã Hussain. As comemorações incluem cânticos, procissões e, em alguns casos, rituais de autoflagelação, como expressão de solidariedade com o sofrimento do imã.
No caso das imagens repercutidas da celebração em Portugal, vê-se os participantes a realizar o “matam” (latmīya em árabe), uma forma tradicional de bater ritmicamente no peito para exprimir o pesar pelo martírio do Imã Hussain.
“Trata-se de um ato simbólico, não prejudicial, realizado coletivamente e de forma pacífica. Muitos estudiosos islâmicos desencorajam a automutilação física e o nosso evento seguiu essas diretrizes, centrando-se na reflexão, na dignidade e nos valores universais da justiça e da verdade”, explica a organização.
Importa destacar que as celebrações de Ashura em Portugal não são novas. A Associação Lady Fatemah esclarece que desde 2019 organiza as comemorações deste dia, preenchendo todos os requisitos necessários e respeitando as obrigações legais. Este ano, estima, terão participado cerca de 500 pessoas.
A entidade sublinha ainda que a mensagem do sacrifício do Imã Hussain “vai muito além da religião” e continua a inspirar pessoas em todo o mundo. Lembra que o Ashura não é assinalado apenas por muçulmanos e que em alguns locais também cristãos, sunitas e pessoas de outras crenças participam para honrar os valores de justiça e dignidade que Hussain defendeu.
E lamenta: “Infelizmente, algumas pessoas fizeram suposições sem compreender a história ou o objetivo do evento. O que aconteceu no domingo foi pacífico, respeitoso e centrado na reflexão – não foi um protesto, não foi política, e certamente não foi religião no sentido divisivo. Foi uma comemoração humana que pertence a todos os que se preocupam com a justiça e a verdade”.
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Avaliação do Polígrafo:

