“Pedimos a médicos intensivistas brasileiros com experiência no tratamento de doentes com Covid para ajudar temporariamente durante 3 ou 4 meses nos hospitais na região do Porto (a segunda maior cidade de Portugal) que estão no limite da capacidade de unidades de cuidados intensivos. Médicos com muita experiência poderiam vir um mínimo de 30 dias”, lê-se no início do documento, a circular através do WhatsApp no Brasil.

As condições apresentadas aos profissionais brasileiros na proposta são “o alojamento e viagem gratuitos para o médico e a sua família” e um “salário igual aos médicos intensivistas portugueses”.

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Os organizadores da iniciativa apresentam-se como “um grupo de cerca de 100 cidadãos maioritariamente do Porto e de variadas áreas profissionais, vários deles empreendedores que estão muito preocupados com a escassez galopante da capacidade do sistema de saúde na região”.

Ao longo do documento são mencionadas várias entidades, entre elas, a Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos (SPCI) e a Câmara Municipal do Porto. Esta última já se teria alegadamente disponibilizado “para suportar os custos do projeto”.

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Confirma-se a existência de um processo de recrutamento de médicos oriundos do Brasil para auxiliar as unidades de cuidados intensivos em hospitais da região Norte de Portugal?

A resposta é negativa.

Questionado pelo Polígrafo, João Gouveia, presidente da SPCI, explica que “tomou conhecimento informal de uma iniciativa de um grupo da sociedade civil para recrutar médicos brasileiros para virem exercer medicina intensiva em Portugal, auxiliando no combate à pandemia”.

No entanto, sublinha que a SPCI “não foi formalmente consultada, não endossa esta iniciativa e exprime algumas reservas em relação a este processo em concreto”.

“A integração de médicos estrangeiros, com rotinas e métodos de trabalho diferentes, nesta fase crítica da pandemia, é mais uma desvantagem que uma vantagem”, adverte João Gouveia, salientando que apesar de “louvar o espírito da iniciativa”, esta poderia criar “dificuldades de gestão e funcionamento das equipas e potencialmente comprometer a necessária segurança de doentes e profissionais”.

Por sua vez, fonte oficial da Câmara Municipal do Porto assegura que lhe "foi apenas apresentada a possibilidade de reforço de equipas médicas durante uma reunião, realizada no final do mês de outubro, via teleconferência”.

No entanto, segundo o município, a proposta apresentada foi “imediata e liminarmente afastada” pelas personalidades médicas consultadas.

O Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), mencionado no documento como uma das unidades que iria receber os profissionais de Saúde, afirma que apenas teve conhecimento desta situação quando recebeu vários e-mails de médicos brasileiros a solicitar informações.

“Desconhecíamos o processo e nunca fomos contactados no sentido de qualquer protocolo desta dimensão”, assegura  fonte oficial do CHUSJ, acrescentando que “o facto já foi comunicado ao Ministério Público, para os devidos efeitos, tendo em conta a possibilidade de se tratar de uma fraude”.

Esclarecimento idêntico foi prestado ao Polígrafo pela Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN) que alega ignorar a situação em apreço e confirma o “igual desconhecimento da situação por parte dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde da sua área de jurisdição”.

Em suma, conclui-se que existiu uma iniciativa de um movimento da sociedade civil - com o qual o Polígrafo não conseguiu contactar - que propôs dar início a um processo de intercâmbio temporário de profissionais intensivistas brasileiros para aumentar a resposta à Covid-19 em unidades hospitalares da zona Norte.

No entanto, a informação exposta no documento que está a circular no Brasil é enganadora ou está desatualizada, já que a proposta foi recusada pelas várias entidades médicas consultadas. Algumas delas, mencionadas na proposta, nunca foram sequer contactadas.

É então falso que médicos do Brasil estejam a ser recrutados para auxiliar na resposta à Covid-19 em hospitais do Norte de Portugal.

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