"Não, senhor deputado, o país não empobreceu. O PIB per capita dos portugueses cresceu 20% entre 2015 e 2019. E mesmo com os dois terríveis anos da pandemia, em 2020 e 2021, o PIB per capita dos portugueses aumentou 18% relativamente a 2015", declarou hoje o primeiro-ministro António Costa, ao intervir no debate sobre o "Estado da Nação", em resposta direta a Joaquim Miranda Sarmento, deputado e recém-eleito líder da bancada parlamentar do PSD.

A percentagem indicada tem fundamento?

De acordo com os dados compilados pelo Eurostat, serviço de estatística da União Europeia, ao nível do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, em Paridades de Poder de Compra (PPC), Portugal passou de 21.300 em 2015 para 24.000 em 2021, o que perfaz um aumento global de cerca de 12,7%, muito distante dos 18% evocados pelo primeiro-ministro no debate.

Na comparação entre 2015 e 2019, passou de 21.300 para 24.600, o que perfaz um aumento de cerca de 15,5%, também muito distante dos 20% indicados por Costa na Assembleia da República.

Mesmo optando por outro indicador, como o PIB per capita a preços constantes, de acordo com os dados compilados na Pordata, o facto é que Portugal passou de 17.647,9 em 2015 para 18.882,8 em 2021 (valor preliminar neste último ano), o que perfaz um aumento global de cerca de 7%, muito distante dos 18% apontados pelo primeiro-ministro.

Na comparação entre 2015 e 2019, passou de 17.647,9 para 19.818,2 e assim perfaz um aumento de cerca de 12,3%, também muito distante dos 20% salientados por Costa no debate sobre o "Estado da Nação".

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Atualização:

Na sequência de contacto do Polígrafo, o gabinete do primeiro-ministro apontou para o PIB per capita a preços correntes como indicador de referência da afirmação proferida. Nesse indicador, Portugal passou de 17.350 em 2015 para 20.530 em 2021 (valor provisório neste último ano), de acordo com os dados do Eurostat, o que perfaz um aumento global de 18,3%.

No entanto, quando afirmou que o PIB per capita dos portugueses aumentou 18% relativamente a 2015", Costa não especificou que se tratava do PIB per capita medido a preços correntes, um indicador que não permite distinguir se a variação no PIB nominal resulta de uma variação nos preços ou de uma variação nas quantidades produzidas.

Ora, em pleno ambiente inflacionário que se iniciou em 2021 e exponenciou já em 2022, ter em conta a variação nos preços torna-se ainda mais preponderante na análise da evolução do PIB per capita ao longo dos últimos sete anos. Pelo que fica a nota de que o primeiro-ministro não extrapolou uma percentagem, mas baseou-se no indicador (não especificado na afirmação que proferiu) menos válido para aferir sobre a real evolução do PIB per capita entre 2015 e 2021.

Questionado pelo Polígrafo sobre esta matéria, o economista Pedro Brinca, professor da NOVA School of Business and Economics, aponta no mesmo sentido: "O PIB é a criação de riqueza dentro das fronteiras de determinado país. Está subjacente a premissa de que mais PIB é mais riqueza e mais riqueza é maior qualidade de vida. Ora, o que interessa para a qualidade de vida das pessoas é o PIB real e não o nominal."

"A diferença entre o PIB nominal e o PIB real é a inflação. Por exemplo, entre 1995 e 2014, o rendimento dos portugueses duplicou, mas o poder aquisitivo desse rendimento não duplicou, aumentou apenas 20%. Dentro daquele quadro de referência onde falamos do PIB, porque é uma variável importante para as pessoas na medida em que mede a sua qualidade de vida. O PIB nominal é completamente irrelevante num cenário em que exista inflação, o que interessa é o PIB real, o que interessa é que a capacidade de aquisição de bens e serviços pelas famílias tenha aumentado ou não", sublinha o economista.

"Nestes últimos sete anos, entre 2015 e 2021, houve inflação, a inflação não foi zero. Portanto, o que interessa não são esses 18%, mas sim esses 18% depois de descontado o efeito da inflação", conclui.

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Avaliação do Polígrafo:

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