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Esta imagem é de um livro utilizado nas escolas para ensinar crianças sobre sexo? E é atual?

Sociedade
O que está em causa?
Está a ser partilhada nas redes sociais a imagem que se diz ser de um livro infantil que estará a ser utilizado para aprendizagem nas escolas em Portugal. Questiona-se se são "estas poucas vergonhas" que querem que se ensine "a crianças em idade da inocência".

“Portugal. Que merda é esta pá? É esta merda que querem ensinar às nossas crianças? Estas poucas vergonhas a crianças em idade da inocência, estes (…) vendidos aos EUA com esta agenda que destrói culturas, famílias e nações… Abram os olhos portugueses! Que vergonha! Não permitam que na escola dos vossos filhos os deixem ler estas aberrações”, denuncia-se num tweet publicado no dia 25 de junho.

A acompanhar esta mensagem é partilhada uma imagem do livro com a ilustração de um casal abraçado e o seguinte texto: “Para fazer um bebé os pais têm que estar muito juntos, muito juntos, muito juntos. Tão juntos que o pai mete-se dentro da mãe. Dentro da mãe? Como quando um mergulhador se mete no mar? Não. O que se mete é o pénis do papá na vagina da mamã. Os adultos gostam muito disto, porque é muito agradável.”

Da mensagem escrita no tweet aos múltiplos comentários que motivou, retira-se a ideia de que este livro, além de atual, estará a ser utilizado como ferramenta de ensino nas escolas.

Será mesmo assim?

Na realidade, a imagem em causa foi replicada a partir do livro “Bochechas Querem Saber… Como Nascemos“, do escritor galego Pepe Carreiro. Tem como idade recomendada para a leitura a partir dos sete anos.

No entanto, não só a obra não é atual, uma vez que foi publicada em 2008, como também não consta no catálogo do Plano Nacional de Leitura. Nem se vislumbra qualquer indício de que este livro seja utilizado nas escolas portuguesas.

E se fosse utilizado? Em primeiro lugar, importa esclarecer que o livro pretende ensinar, de forma adequada à idade, o processo que leva ao nascimento dos bebés, ou seja, a reprodução. E não, especificamente, a sexualidade de um casal, ou incentivar as crianças ao sexo como se dá a entender no tweet, ou em alguns dos comentários à publicação.

Vânia Beliz, psicóloga clínica sexóloga e autora de vários livros sobre educação sexual, explica ao Polígrafo que nos últimos tempos “tem vindo a público um conjunto de imagens retiradas de livros, muitos deles antigos, com o objetivo de alarmar as pessoas em relação à forma como a educação para a sexualidade é ensinada nas escolas”.

Ora, no que diz respeito a Portugal, existe “um guião de orientação para a saúde, que qualquer família pode descarregar e é gratuito onde tem os eixos para a orientação para a saúde e o último eixo diz respeito aos ‘afetos e sexualidade'”, explica. A psicóloga refere-se ao “Referencial de Educação para a Saúde” publicado no site da Direção-Geral da Saúde.

Este guia detalha, consoante a idade, quais os assuntos que devem ser abordados na escola, inclusive a sexualidade. “Se as famílias soubessem quais são os temas que devem ser abordados poupava-se que estas coisas andassem a circular nas redes sociais”, aponta.

A sexóloga lamenta o “retrocesso a que se tem assistido nos últimos anos em relação à forma como se ensina os temas da reprodução, que é um processo biológico” e questiona “como é que as pessoas querem ensinar às crianças como é que isto acontece”.

“Estamos a entrar num fundamentalismo que não protege as crianças. As crianças não ficam traumatizadas por saberem que os espermatozoides saem dos testículos pelo pénis e que o pénis entra nas vaginas das mulheres”, sublinha Vânia Beliz.

A especialista aponta que a partir dos três ou quatro anos, há crianças que começam a questionar como nasceram e que quando lhe perguntam explica de forma apropriada à idade começando por perguntar o que sabem sobre o assunto. “Quando as crianças fazem perguntas, primeiro temos de tentar perceber o que sabem sobre o assunto. Às vezes esquecemo-nos de um pormenor que é o facto de as crianças, hoje em dia, terem acesso a conteúdos adultos muito cedo e altamente erotizados, portanto, o sexo, neste momento, está em todo o lado. O que é preciso é explicar às crianças de forma adequada à sua compreensão e de acordo com a sua curiosidade”, indica.

Isto porque mesmo que a criança não expresse curiosidade, está em contacto todo o dia com os seus pares que “têm acesso ao telemóvel, têm acesso a tablets, a ouvir crianças mais velhas”. Portanto, é importante dar-lhes ferramentas para que possa desenvolver-se de forma adequada.

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Avaliação do Polígrafo:

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