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Especial 25 de Abril. Uma em cada três portuguesas era analfabeta em 1970, antes da revolução?

Política
O que está em causa?
Para celebrar os 50 anos da madrugada que mudou Portugal, o Polígrafo dedica-se a um "Especial 25 de Abril", com artigos sobre o antes e o depois da Revolução dos Cravos.

Tendo por base os censos populacionais realizados na transição do século XIX para o século XX, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), atentemos na evolução da taxa de analfabetismo da população com idades iguais ou superiores a sete anos – alteração promovida pela primeira vez nos Censos de 1920, sendo a taxa de analfabetismo até essa data calculada sobre o total da população. Verifica-se assim uma queda de 78% em 1878 para 62% em 1930, cerca de 18 pontos percentuais (p.p). Assim era Portugal antes do 25 de Abril.

As estatísticas publicadas na segunda metade do século XIX colocaram a descoberto os valores traumáticos relativos às taxas de analfabetismo, uma vez que a esmagadora maioria da população portuguesa nunca tinha frequentado a escolanão sabendo ler ou escrever. Este foi, assim, o grande foco do ativismo político republicano, sendo que a escola, em particular o ensino primário, passou a ser vista como o lugar privilegiado para a formação do cidadão eleitor.

Ainda assim, e não obstante esse investimento, a taxa de analfabetismo sofreu uma redução frugal. Entre os Censos de 1911, em que a taxa de analfabetismo dos maiores de sete anos era de 69%, e os Censos de 1930, intervalo que abrange genericamente o período republicano, essa descida foi de apenas sete pontos percentuais, atingindo cerca de 62% no final deste último ano, valor sustentado por variáveis como o atraso económico do país ou ainda a concentração da população em zonas rurais.

Salto para 1970, ano destacado na publicação e período no qual, segundo a Pordata, 25,7% da população era ainda analfabeta, perfazendo um total de dois milhões de cidadãos que não sabiam ler ou escrever. À data, de facto, 31% das mulheres não sabiam ler ou escrever. Ou seja, quase uma em cada três.

Nos homens, a percentagem era de apenas 19,7% e este fosso permaneceu até 2011, ano em que 6,8% das mulheres ainda eram analfabetas, face a apenas 3,5% dos homens. Neste ano, e comparativamente a 1960 (26,6% homens analfabetos e 39% de mulheres analfabetas), importa no entanto notar uma descida significativa da taxa geral de analfabetismo relacionada com a dissolução do Império Português.

Em consequência das transformações económicas, sociais e culturais de Portugal ao longo do século XX, a taxa de analfabetismo foi sendo cada vez menor, atingindo valores mínimos de cerca de 5%. Ou seja, meio milhão de pessoas, registadas no último momento censitário, em 2011.

Ainda assim, se atentarmos no universo populacional verificamos que estas descidas e subidas não são, ao contrário do previsto, tão significativas: a população portuguesa foi aumentando à medida que a taxa de analfabetismo foi descendo, o que significa que o número de analfabetos se manteve elevado e dentro de valores semelhantes durante alguns anos.

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Avaliação do Polígrafo:

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