Tornou-se viral um vídeo no TikTok que mostra o momento em que uma jovem madeirense terá sido vítima de importunação sexual na via pública. O facto de o homem ser estrangeiro gerou uma onda de indignação nas redes sociais, havendo até quem sugira que este tipo de crimes só começou a ocorrer na região após a chegada de imigrantes “indostânicos”.
“Na Madeira, os indostânicos já estão a começar a assediar as nossas mulheres. Nunca tivemos crimes relacionados com violação, roubo ou homicídio… Estes invasores precisam de ser deportados, urgentemente! Costumávamos ser um cantinho tranquilo”, destaca-se num tweet, ao qual é anexado o vídeo.
Mas será verdade que “nunca” se registaram estes crimes na Região Autónoma da Madeira?
Esta percepção pode dever-se ao facto de a Madeira registar uma das taxas de criminalidade mais baixas do país (28,1% em 2023). No entanto, é absolutamente falso dizer que nunca houve estes crimes na região.
De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2024, tanto a criminalidade geral como a criminalidade violenta têm vindo a diminuir na Madeira desde 2022.
O Polígrafo entrou em contacto com a Direção-Geral da Política de Justiça para obter os dados relativos aos crimes de violação, roubo e homicídio – inseridos na criminalidade violenta – e constatou o seguinte:
Em 2024, registaram-se três homicídios voluntários consumados na Madeira, um número que foi contabilizado outras 11 vezes em anos anteriores e que contrasta com os 44 de 1993. Houve ainda seis anos diferentes – 2002, 2009, 2011, 2018, 2019 e 2023 – em que não foram assinalados quaisquer assassínios.
No ano passado, foram contabilizados 149 roubos, menos que em 2023 (159) e que em 2022 (184). O ano em que se reportaram mais destes crimes, dentro do período em análise (1993 -2024) foi 2020, com 250 roubos.
Tal como os roubos, os crimes de violação aparecem sempre na lista desde 1993. Em 2024, foram contabilizadas sete violações, mais uma do que em 2023 e menos 13 do que em 2022. Para deparar com um número superior de violações ao de 2022, há que recuar até 1996 (25) e 1995 (23).
Importa esclarecer que as estatísticas sobre crimes não se encontram desagregadas pela nacionalidade dos seus perpetradores.
No que concerne aos crimes de violação, o Núcleo Regional da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) da Região Autónoma da Madeira explicou ao Polígrafo que houve um aumento de denúncias este ano, mas que muitas não resultaram do crescimento do número de cidadãos indostânicos na zona.
“A maioria dos abusadores são madeirenses. Nestes casos, existem dificuldades na investigação: muitas queixas são de tentativa de violação, o que é difícil de comprovar; nas outras, as vítimas vão muito tarde ao instituto de medicina legal, ou não há forma de identificar efetivamente se houve violação”, referiu.
Embora reconheça que se têm verificado mais situações de choque entre culturas no trabalho de intervenção, a associação destaca que a violência contra as mulheres é “um problema estrutural na Madeira, existente muito antes da recente vaga migratória”.
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Avaliação do Polígrafo:

