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É verdade que é possível reverter naturalmente o VIH/SIDA e que a medicação enfraquece o sistema imunitário?

Geração V
O que está em causa?
Num vídeo a circular no Instagram, um homem decide contar a história de como surgiu a SIDA e alega que é "claro que conseguimos reverter o VIH". Segundo o próprio, o corpo consegue reverter qualquer doença e os medicamentos usados no tratamento do VIH enfraquecem o sistema imunitário. O Polígrafo verifica, alegação a alegação, a veracidade do vídeo.

“Concorda que o corpo é um organismo que se cura a si mesmo? A ‘Apple of Eve’ está reabastecida!”, destaca um vídeo publicado no Instagram em 26 de fevereiro.

O autor do vídeo é Yahdan Yada, um homem com uma conta verificada com mais de 411 mil seguidores que se descreve como “ministro, bioquímico, mestre em farmácia, herbalista de celebridades, investidor global, autor, pai e marido”, mas sem qualquer indicação de que seja profissional de saúde.

Na descrição menciona um dos seus produtos “Apple of Eve” que, segundo o seu site, é um “suplemento líquido verdadeiramente único e uma das melhores ferramentas para ajudar o sistema imunitário”. 

As alegações feitas no vídeo têm fundamento?

Antes de mais, ter em conta que a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) é um quadro clínico causado pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH). Neste momento conhecem-se dois agentes: VIH-1, mais prevalente e mais agressivo, e VIH-2, com especial importância para Portugal uma vez que teve origem e elevada prevalência na Guiné-Bissau. Este é um vírus que infeta o hospedeiro através das células T CD4 (um tipo de glóbulo branco) e, à medida que estas células vão sendo infetadas e consequentemente destruídas, a resposta imunitária vai ficando comprometida. Com o evoluir da doença, começam a surgir as infeções oportunistas, ou seja, infeções causadas por agentes que não seriam patogénicos numa pessoa que não tivesse o sistema imunitário comprometido.

E nem toda a gente infetada com VIH tem SIDA. Este estado demora cinco a 10 anos a desenvolver-se e diagnostica-se através de critérios laboratoriais (número destas células CD4) e clínicos (surgimento de infeções oportunistas e outras manifestações típicas). 

A história que Yada apresenta logo ao início é confusa e imprecisa. Começa por dizer que o nome original da doença SIDA começou por ser GRID (gay-related immune deficiency). De facto, em 1981, foi reportado um grande número de casos de jovens homossexuais que morriam na sequência de infeções oportunistas pouco comuns e, como é dito no vídeo, essa doença foi denominada oficialmente GRID, entre outros nomes não oficiais como “praga gay”, “doença dos homossexuais” ou, como se lê num artigo do New York Times de junho de 1982, “Cancro Gay”. Esta denominação altamente discriminatória e cientificamente imprecisa foi rapidamente abandonada e em 1982 mudada para a atual (SIDA). 

Mas, verifiquemos alegação a alegação:

Poppers podem ter estado na origem da propagação do vírus?

O vídeo também coloca na origem do vírus o consumo de poppers que eram levados “por gays para festas” e “enfraqueciam o sistema imunitário”. Estes poppers de que fala Yada são nitritos (nitrito de amila, butila ou isobutila), ou seja, drogas vendidas ilegalmente conhecidas também como ouro líquido ou “rush”.

Isabel Aldir, coordenadora desde 2016 do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA e médica especialista do serviço de Infeciologia do Hospital Egas Moniz, explica ao Polígrafo que “embora não se defenda o consumo destas substâncias, a imunodepressão que estes doentes apresentavam devia-se ao facto de estarem infetadas por VIH e não ao consumo de poppers que não provoca esta imunodepressão”.

É possível reverter o VIH/SIDA?

Uma das questões centrais do vídeo é a de que é possível reverter a doença. Isabel Aldir desmente essa alegação e explica ao Polígrafo que “o corpo humano, por si só, não consegue eliminar o vírus e reverter a infeção.”

“Há raríssimos casos descritos de cura (três para já no mundo, e outros três em investigação), mas todos eles foram submetidos a transplante de medula e a quimioterapia – motivados por leucemias ou linfomas – e a medicação para o VIH. Podemos ainda encontrar alguns casos denominados de controladores de elite (‘elite controllers‘) que embora não manifestem sinais de multiplicação do vírus estão infetados”, acrescenta a especialista que conta com mais de três décadas de experiência.

Medicação para o VIH enfraquece o sistema imunitário?

Yada termina o vídeo a afirmar que a medicação para o VIH enfraquece o sistema imunitário, mas Isabel Aldir também desmonta essa ideia: “O que enfraquece o sistema imunitário é o próprio vírus, que se multiplica no interior dos linfócitos T CD4+ e os destrói; a medicação para o VIH ao impedir que o vírus se multiplique impede que esta destruição se verifique e restabelece em larga medida o sistema imunológico.”

VIH teve origem num “homem africano que teve relações com um macaco”?

Outra alegações do vídeo é a de que o VIH veio de “um homem africano que teve relações com um macaco”, o que não se confirma. Atualmente a teoria mais aceite para a origem do VIH é que este vírus vem do Vírus da Imunodeficiência Símia (VIS) que é frequente em algumas comunidades de chimpanzés e gorilas do oeste africano. A passagem para o hospedeiro humano estima-se que tenha sido entre o final do século XIX e o início do século XX perto de Leopoldville (atual Quinxassa, R.D. Congo) e que resultou da transmissão de sangue do animal afetado para o humano através de uma mordedura ou de um corte durante a preparação da carne.

Em suma, é verdade que GRID foi uma denominação que já foi utilizada oficialmente nos anos 80, mas as restantes alegações são falsas, nomeadamente a principal – e talvez mais perigosa – que aponta que é possível reverter o VIH e a terapia farmacológica causa imunodepressão.

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Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “Geração V – em nome da Verdade”, uma rede nacional de jovens fact-checkers. O projeto foi concretizado em parceria com a Fundação Porticus, que o financia. Os dados, informações ou pontos de vista expressos neste âmbito, são da responsabilidade dos autores, pessoas entrevistadas, editores e do próprio Polígrafo enquanto coordenador do projeto.

*Texto editado por Marta Ferreira.

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