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É verdade que Ana Jorge “denunciou graves erros de gestão” na Santa Casa durante o seu mandato?

Política
O que está em causa?
Na rede social X, o Governo da Aliança Democrática (AD) é acusado de "limpar" os cargos preenchidos pelo antigo Executivo, nomeadamente o de Ana Jorge que, garante-se, terá "denunciado graves erros de gestão" na Santa Casa da Misericórdia durante o seu mandato de cerca de um ano. É verdade?
© António Pedro Santos/Lusa

São as declarações do ministro da Presidência contra um “tweet” publicado horas depois de o Governo exonerar, a 29 de abril, a provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). Segundo António Leitão Amaro, em declarações na conferência de imprensa do Conselho de Ministros desta quinta-feira, “o que os portugueses não perdoariam era que o Governo assistisse em inação a um agravar contínuo da situação financeira, da capacidade para atender os que mais precisam, ou o cumprimento da sua missão social, e que fosse tolerante perante essa inação e passividade, que não se manifestou, já agora, em 15 dias ou três semanas.”

Em críticas à mesa, que “exercia funções há um ano”, o ministro destacou que “não se conhece nenhum plano de reestruturação” – que não “existia” -, bem como “medidas decisivas para inverter a situação de degradação financeira na Santa Casa”.

“Decisivas” ou não, a gestão de Ana Jorge é autora de várias alterações na gestão financeira da SCML, nomeadamente a redução do número de chefias, o reforço das verbas estatais para prestação de cuidados complementares nas áreas da saúde e da segurança social, um corte nos patrocínios ao desporto e uma negociação com os fornecedores.

Na reação à sua exoneração, a provedora confessou-se “desiludida” com a forma “rude, sobranceira e caluniosa” como o “comunicado emitido pelo Ministério do Trabalho” justificou a sua exoneração. “Foram onze meses muito duros”, considerou Ana Jorge, de uma equipa que trabalhou “rumo à sustentabilidade financeira, à motivação dos colaboradores. É por isso – pelo tanto trabalho, desenvolvido em tão pouco tempo e pelo plano de reestruturação sólido que desenhámos e que queríamos implementar – que hoje não me sinto tão triste. Por isto, só por isto.”

No X, o Governo é acusado de fazer uma limpeza aos cargos preenchidos pelo antigo Executivo (terá começado com a direção executiva do SNS) e a gestão de Ana Jorge é defendida ao máximo: “Desde que é provedora, há coisa de um ano, Ana Jorge denunciou incansavelmente graves erros de gestão na Santa Casa e lançou auditoria para aferir a sua dimensão.” É verdade?

Nomeada a 2 de maio de 2023, em setembro desse ano Ana Jorge já denunciava no Parlamento “indícios de irregularidades” na Santa Casa Global. Segundo a provedora, a gestão de Edmundo Martindo (seu antecessor) só pediu autorização à tutela para investir 5 milhões de euros para financiar os projetos da Santa Casa Global (que gere as lotarias e os jogos de apostas no mercado externo). No entanto, e depois de a despesa ser autorizada pelo Governo, as transferências foram-se acumulando e chegaram aos 27 milhões de euros. Ana Jorge, que pediu uma auditoria à então ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, disse à data que tinha que aguardar “pela auditoria para se perceber exatamente o que aconteceu”, destacando, sem mais informações, que “a rede de negócios no Brasil é confusa”.

Em março deste ano, ao jornal “Expresso“, Ana Jorge classificava mesmo a expansão global da Santa Casa de Lisboa como “um desastre“. Dias depois de a auditoria ser entregue ao Ministério com a tutela, a então provedora apontava para perdas entre os 50 e os 60 milhões de euros associadas à SCG. Como a auditoria, que identificou indícios de crimes económicos e de práticas ilícitas em negócios no Brasil, não estava ainda concluía, Jorge admitia que podia “haver um acréscimo” neste valor.

“Neste momento, o que temos é suficiente para dizer que aquilo foi um desastre, aliás, há um relatório da anterior gestão da SCG a dar conta que a operação no Rio de Janeiro não deu dinheiro, nem iria dar — e, mesmo assim, continuaram”, afirmou. O percurso de Ana Jorge já tinha passado pela Santa Casa, que, garantiu, “sabia que tinha muitos problemas”. Quando saiu, já achava que havia coisas desorientadas” e que, “do ponto de vista financeiro, não havia muito dinheiro”.

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Avaliação do Polígrafo:

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