“Um homem curou o cancro apenas com placebo”, diz-se num TikTok com milhares de visualizações. No vídeo, fala-se sobre o caso de um homem que, alegadamente, teria ficado “curado” de um cancro agressivo após um médico lhe ter administrado um placebo, que lhe disse ser um medicamento altamente eficaz no tratamento do cancro.
Mas será que é mesmo assim? É possível curar um cancro apenas com placebo?
É possível curar um cancro com placebo?
Não, nenhuma evidência sustenta essa possibilidade. A cura do cancro é feita com recurso a tratamentos comprovados, como a cirurgia, quimioterapia, radioterapia, entre outros.
Antes de mais, importa esclarecer o que é um placebo e o que significa “efeito placebo”. Em declarações ao Viral em 2023, Ana Rodrigues, investigadora da NOVA Medical School, explicou que placebos “são todos os tratamentos sem propriedade terapêutica ativa como, por exemplo, um comprimido de açúcar ou de farinha”.
Já o efeito placebo é definido como “a melhoria da saúde física ou psicológica de uma pessoa, após fazer um tratamento que não tem propriedades terapêuticas ativas”.
Esse efeito é muito importante na investigação científica, “nomeadamente nos ensaios clínicos, de modo a poder comparar-se o efeito do tratamento novo (em estudo) com nenhum tratamento ativo (placebo) na melhoria de uma determinada condição de saúde”.
Mas o placebo não cura doenças. O que alguns estudos mostram é que o placebo pode ter efeitos em sintomas como dor, fadiga ou náuseas, mas não provoca regressão tumoral clinicamente relevante nem cura cancro.
Uma revisão publicada no Journal of the National Cancer Institute analisou dezenas de ensaios e concluiu que os únicos impactos de placebo são em sintomas secundários, na regressão de tumores existe um registo pontual mas que não é considerado relevante.
Uma meta-análise recente, que analisou 45 ensaios clínicos, concluiu que a probabilidade de regressão completa do tumor é de 0% ainda que a taxa de resposta global, que inclui o encolhimento parcial do tumor, seja de 1%.
“Os placebos não diminuem nenhum tumor. Atuam sobre sintomas modulados pelo cérebro, como a perceção da dor”, lê-se num texto na página da Escola de Saúde Pública de Harvard. “Os placebos podem fazer com que se sinta melhor, mas não curam”.
Nenhuma instituição de saúde reconhece o placebo como tratamento para o cancro e não há sinais que possa curar qualquer doença.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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