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É impossível uma “temperatura real de 38°C” corresponder a uma “sensação térmica” de 50ºC?

Sociedade
O que está em causa?
A última semana de Verão no Brasil foi marcada por uma onda de calor que elevou a sensação térmica na cidade do Rio de Janeiro acima dos 60ºC. Uma notícia que levou muitos cépticos a questionar, nas redes sociais, como é que “uma temperatura real de 38ºC” poderia corresponder a uma “sensação térmica” acima dos 50ºC. O Polígrafo esclarece o que está em causa.

“A fake news do momento é a chamada sensação térmica”: esta é uma das várias publicações que, ao longo dos últimos dias, têm circulado nas redes sociais, após a cidade brasileira do Rio de Janeiro ter atingido um novo valor recorde nesse indicador: 62,3ºC. Uma notícia que causou alguma confusão, visto que os termómetros não foram além dos 40ºC de temperatura real.

A desconfiança relativamente ao conceito começou logo após alguns meios de comunicação social brasileiros terem alertado para que, no fim de semana passado, a sensação térmica pudesse mesmo ultrapassar os 50ºC no Rio de Janeiro. “As narrativas sem lógica dos media,  para colaborar com a tese usada pelo sistema do aquecimento global! Como com uma temperatura real de 38°C a sensação térmica é de 50°C?”, questiona-se noutra publicação no Facebook.

Como se explica, então, este fenómeno?

Em resposta ao Polígrafo, Filipe Duarte Santos, professor universitário e investigador especializado na temática das alterações climáticas, esclareceu que o conceito de sensação térmica “não tem só a ver com a temperatura, mas também com a humidade e com a presença de vento”. E é isso que explica que, num local onde a temperatura real é de cerca de 40ºC, a sensação térmica possa ser de cerca de 60ºC: “É porque há muita humidade.”

Exemplo disso é, nomeadamente, o arquipélago dos Açores, onde até se “sente muito mais calor no verão” – o que corresponde à sensação térmica –, embora as temperaturas reais “normalmente não são tão elevadas”. E acrescentou: “Os verões em Portugal continental não têm nada a ver com os verões dos Açores, pois são quentes e secos. Nos Açores são húmidos e não são assim muito quentes.”

A sensação térmica será, portanto, algo mais “subjetivo” e que tem que ver com a “biofísica”. E exemplificou com o modo como o corpo humano reage, diferentemente, quando exposto ao ambiente de uma sauna, quando comparado com um banho turco. “Nós aguentamos muito melhor uma sauna. Nunca entraríamos num banho turco a 80ºC, que é uma sauna húmida, mas conseguimos facilmente entrar numa sauna a 70ºC. Exatamente por causa da questão da humidade”, apontou. Tudo isto porque “o ar, quando tem humidade, transmite mais calor, de forma mais eficiente do que quando é seco”.

Se aqui falamos de um caso em que a “sensação térmica é superior à temperatura real”, importa lembrar que também “acontece o inverso”: ou seja, situações em que se regista “uma sensação térmica inferior à temperatura real”. Algo que, “normalmente”, também está relacionado com a “baixa humidade e a presença de vento”, indicador “que também interessa, porque quando temos algum vento, a sensação térmica é mais baixa”.

Ainda assim, o investigador considerou que é importante ter em consideração que, “no contexto das alterações climáticas, o que se mede em ciência é a temperatura, não é a sensação térmica”. Este último indicador é algo divulgado “pelos meios de comunicação social” e nos “weather reports [boletins meteorológicos]”.

Elaborou o raciocínio: “A sensação térmica nunca é usada na ciência das alterações climáticas, não existe no IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] a sensação térmica. Existe o aumento de temperatura, o aumento de temperatura do mar, o aumento de temperatura da superfície da terra, o aumento de temperatura do oceano em profundidade e à superfície, tudo isso. Mas sempre, sempre temperatura.”

Apesar disso, lembrou que “na ciência das alterações climáticas”, os investigadores não se “preocupam” apenas “com a temperatura” e o “aumento” da mesma, mas “também com outras variáveis. “Tem a ver com diferenças de padrões do clima: porosidade, algumas zonas ficam mais húmidas, outras mais secas, depende.”

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Avaliação do Polígrafo:

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