As baixas temperaturas registadas em certos pontos do planeta ou a ocorrência de queda de neve em locais onde não é habitual nevar servem muitas vezes de argumento para sustentar que vivemos um “arrefecimento global” e não um “aquecimento global”. Caso disso é uma publicação em circulação no Facebook em que se alega que a Terra nunca aqueceu, mas sim arrefeceu.

O autor do post acusa ainda os supostos “corruptos” - designadamente “ONU, Vaticano, universidades, cientistas, ONG e governos do G7” - de terem substituído a expressão “aquecimento global” por “alterações climáticas” quando se aperceberam de que o mundo estava a arrefecer. No mesmo texto, declara-se ainda que o buraco na camada do ozono “não existe” e que “não existe degelo nos polos”.

Outra publicação partilhada nas redes sociais utiliza argumentos semelhantes para negar a subida da temperatura global da Terra, justificando esta tese com o facto de no Texas, Estados Unidos da América, já terem sido registadas temperaturas de 20 graus Celsius negativos.

No entanto, todas estas alegações são falsas e sem fundamento científico, tal como confirmam ao Polígrafo o climatologista e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Carlos da Câmara e o físico e investigador na área das alterações climáticas Filipe Lisboa.

Em primeiro lugar, Carlos da Câmara explica que afirmar que o frio no Texas é prova de um arrefecimento do planeta seria o mesmo que dizer que “é impossível a população mundial estar a aumentar, visto que há um problema de natalidade em Portugal”.

“Há outros efeitos, há as estações, há o ar em movimento, há toda uma riqueza no movimento e na atividade dos parâmetros que faz com que haja anos mais frios e anos mais secos”.

Com esta analogia, o climatologista quer esclarecer que “quando se diz que há um aquecimento global, o que se está a dizer é que, em média, o planeta está a aumentar a sua temperatura”. No entanto, essa subida no termómetro do planeta não impede que outros fenómenos com efeitos no clima continuem a acontecer: “Há outros efeitos, há as estações, há o ar em movimento, há toda uma riqueza no movimento e na atividade dos parâmetros que faz com que haja anos mais frios e anos mais secos”.

Por isso, acrescenta Filipe Lisboa, “podemos ter algumas zonas mais frias em certas zonas do planeta, podemos até ter invernos mais rigorosos em zonas onde eram mais amenos, mas isso são questões locais”, não podendo “tomar-se a parte pelo todo”.

Para mais, Câmara lembra que as mudanças no clima são provadas com dados estatísticos, baseados em “observações globais, independentes, a partir de muitas fontes, em particular de satélites”. O climatologista refere, a título de exemplo, um estudo feito por cientistas portugueses sobre a classificação de eventos secos e húmidos na Península Ibérica entre 1901 e 2016 que demonstra que quatro das cinco secas extremas mais longas e persistentes registadas neste período aconteceram já no século XXI.

Aquecimento global é inegável e cientistas não deixaram de usar o termo

Para os dois investigadores - e para a comunidade científica em geral - o aquecimento global é um facto inegável. Além disso, sublinha Filipe Lisboa, “a ciência que explica o aquecimento global é muito antiga, vem do século XIX”.

Trocado por miúdos, o aquecimento global é  uma “reação natural do sistema Terra para que o seu equilíbrio energético se mantenha”.

Mas como é que funciona na prática? Carlos Câmara começa por explicar que “o planeta Terra é um sistema físico e, portanto, armazena uma dada quantidade de energia que é utilizada para mover a água (correntes) e o ar (ventos), fazer crescer a vegetação (fotossíntese), etc.”. Ora, “essa energia provém do Sol (energia solar) e mesmo outras formas de energia (energias fósseis) não são mais do que energia solar de há milhões de anos que ficou armazenada”. Depois, à medida que a energia vai sendo utilizada, “degrada-se (perde qualidade) e a energia muito degradada (calor) é reenviada para o espaço”.

Nesse sentido, “para que o sistema Terra se mantenha, é preciso que em média a energia solar de grande qualidade que entra seja igual à energia de baixa qualidade que sai”. Ora, os gases com efeito de estufa “dificultam a saída da energia de baixa qualidade, e o sistema Terra, para que essa energia não fique retida,  aumenta em média a sua temperatura para emitir mais e compensar essa retenção pelos gases com efeito de estufa”.

“A razão pela qual se passou a falar em alterações climáticas é porque percebeu-se que o impacto dos gases com efeito de estufa não existe apenas no aquecimento, no aumento de temperatura. Reside também em alterações brutais na distribuição da precipitação. Por exemplo, com um aumento enorme de secas, com um aumento enorme de vagas de calor, e com furacões que estão a chegar mais a norte do que habitualmente chegavam”, elucida Carlos da Câmara.

Trocado por miúdos, o aquecimento global é  uma “reação natural do sistema Terra para que o seu equilíbrio energético se mantenha”. Para ser mais claro, o climatologista compara-o aos mecanismos que permitem corrigir a temperatura de um ser humano. “É tal como quando suamos quando queremos diminuir a nossa temperatura, ou trememos quando a queremos aumentar, ou temos febre quando estamos doentes. Os sistemas físicos que têm dinâmica têm este tipo de mecanismos para enfrentar condições adversas e garantir a sua duração”, sustenta.

Noutro plano, os dois investigadores vincam que, ao contrário do que se escreve nas redes sociais, os cientistas não aboliram o termo “aquecimento global”, apenas acrescentaram ao seu vocabulário a expressão “alterações climáticas” para designar outras mudanças no clima provocadas pelos gases com efeito de estufa.

“A razão pela qual se passou a falar em alterações climáticas é porque percebeu-se que o impacto dos gases com efeito de estufa não existe apenas no aquecimento, no aumento de temperatura. Reside também em alterações brutais na distribuição da precipitação. Por exemplo, com um aumento enorme de secas, com um aumento enorme de vagas de calor, e com furacões que estão a chegar mais a norte do que habitualmente chegavam”, elucida Carlos da Câmara.

Por fim, Carlos da Câmara nega também as alegações de que o buraco na camada do Ozono não existe e adianta que a ideia de que “o aumento de carbono é ótimo porque as plantas crescem mais, desenvolvem-se mais e têm mais carbono” só é verdadeira se estiverem numa estufa.

“Eu posso dar mais carbono às plantas, mas depois se elas não tiverem água e se estiverem expostas a temperaturas que não possam aguentar, a colheita vai diminuir. Não vai haver um aumento de produtividade, porque não é apenas de carbono que as plantas se alimentam”, conclui.

Em suma, o tempo frio em determinadas zonas do mundo não prova um arrefecimento global, visto que, além de o aquecimento global estar cientificamente provado, há outros fenómenos e processos que provocam a descida de temperatura de uma determinada região. Por outro lado, ao contrário do que se escreve em várias publicações do Facebook, a existência do buraco na camada ozono e os efeitos nefastos do aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera também são comprovados pela melhor evidência científica.

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EMIFUND

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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