As reações de medo multiplicam-se em publicações nas redes sociais: "Duas crianças morreram na China. Não ponha uma máscara nos seus filhos"; "Qual a consequência para os pulmões por usar máscara? A hipoxia atinge o corpo todo". Um dos posts mostra, até, uma série de imagens que alegam os efeitos negativos do uso do equipamento de proteção, referindo, por exemplo, que "reduz o oxigénio em 60%, aumenta o risco de intoxicação por dióxido de carbono", aumenta os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea, e causa dor de cabeça e inconsciência.

O alarme parece ter disparado devido a uma notícia que dá conta que duas crianças de 14 anos morreram na China, durante uma aula de educação física, enquanto usavam máscara. Em Portugal, a informação foi partilhada também por sites de informação que não são credíveis, e que constroem o artigo associando diretamente a morte ao uso do equipamento: "Duas crianças perderam a vida depois de entrarem em colapso durante uma aula de educação física, em que usavam máscaras de proteção. As duas mortes aconteceram com seis dias de diferença, na China (…) A autópsia revelou que, na causa de morte, está uma paragem cardíaca. No entanto, o pai do jovem acredita que o uso de máscara está relacionado com o óbito."

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Outra das notícias, que cita como fonte de informação um órgão de comunicação português de referência, assegura que "ainda não existe certeza se a máscara foi a causadora da morte das crianças, mas há quem esteja muito certo de que a máscara levou ao colapso destes rapazes."

Porém, apesar de ser verdade que as crianças morreram durante aulas de educação física, enquanto usavam máscara, em escolas diferentes de duas províncias da China, é falso que tenha sido a utilização do equipamento a provocar os óbitos.

Entre os jornais internacionais que noticiaram o acontecimento, a televisão australiana 7 News é citada como a fonte primária para a informação em língua inglesa, e a realidade é que aquele órgão de comunicação refere muito mais do que as notícias que têm causado preocupação e alarme social, também em Portugal: de, facto, o pai de uma das crianças acredita que foi a máscara a causar a morte, sugerindo que o equipamento provocou falta de oxigénio e intoxicação por dióxido de carbono ao filho - porém, é a única pessoa envolvida a acreditar nesta hipótese. Cao Lanxiu, professora na Universidade de Medicina Chinesa de Shaanxi, garante que "não foi a máscara que causou a morte súbita. Se este estudante tivesse problemas a respirar, ele não teria tido consciência disso e não teria continuado a correr com a máscara até o coração parar."

Além disso, o hospital local registou na certidão de óbito que a criança teve um ataque cardíaco.  E a família, mesmo tendo a convicção de que foi a máscara a conduzir ao óbito, recusou que se fizesse autópsia, o único procedimento que poderia esclarecer todos os pormenores da morte.

Cao Lanxiu, professora na Universidade de Medicina Chinesa de Shaanxi, garante que "não foi a máscara que causou a morte súbita. Se este estudante tivesse problemas a respirar, ele não teria tido consciência disso e não teria continuado a correr com a máscara até o coração parar."

No outro caso relatado, o jovem morreu numa prova de mil metros, também com problemas respiratórios, enquanto usava máscara. Da mesma forma, o 7 News deixa claro que não existe qualquer evidência de que o equipamento tenha sufocado o aluno.

De qualquer maneira, por ser obrigatório o uso de máscaras nos estabelecimentos de ensino na China, várias escolas das duas províncias onde ocorreram as mortes retiraram as provas de corrida dos critérios de avaliação da disciplina, para tranquilizar pais e alunos.

Esta não é a primeira vez que se formulam teorias de que a utilização de máscaras causa hipoxia, ou seja, a redução de oxigénio no sangue e a intoxicação por dióxido de carbono. Trata-se, no entanto, de uma teoria sem sustentação científica, como o Polígrafo já deu conta.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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