"Não, isto não é aceitável. Não, o diretor de recursos humanos da TAP não pode andar a dizer à boca cheia que está em Espanha a recrutar. Não quando a empresa está prestes a enfrentar um processo de despedimento coletivo", escreve a autora de um dos vários tweets que denuncia o vídeo onde surgem dois responsáveis dos Recursos Humanos da TAP na Plaza Mayor, em Madrid, Espanha.

No vídeo aparecem Pedro Ramos, diretor de recursos humanos da companhia aérea, e João Falcato, trabalhador da TAP com responsabilidades na área dos recursos humanos da Manutenção e Engenharia da TAP. O vídeo foi inicialmente publicado na página do Facebook de João Falcato.

"Estamos aqui em Madrid, eu e o meu colega e amigo João Falcato. Já fizemos seleção de pessoas esta tarde. E como é selecionar pessoas neste contexto pandémico?", questiona Pedro Ramos.

João Falcato responde que "para já, é uma cultura diferente. São muito mais abertos, estão muito mais à procura de oportunidades e acham que isto já passou, o que é muito importante porque continuamos a encontrar gente de excelente qualidade, que está disponível no mercado fruto da pandemia, e esperamos trazer para a TAP gente que não estaria disponível até este momento e que vamos conseguir contratar".

"Vamos selecionar os melhores, neste caso vamos selecionar o melhor responsável da nossa área de carga em Madrid, Espanha", conclui Pedro Ramos.

O ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, já escreveu no Twitter estar "indignado com o vídeo que circula com dois trabalhadores da TAP com elevadas responsabilidades na companhia, sendo um deles o diretor de Recursos Humanos, e aguarda pelos resultados do processo de inquérito instaurado pela TAP".

Questionado pelos jornalistas num evento da EasyJet no aeroporto de Faro, Pedro Nuno Santos comentou outra vez o vídeo:  "Não quero alimentar muito mais. A única coisa que me importa – e que quero salientar nesta altura – é que todos os que estão envolvidos num processo muito complicado de reestruturação da TAP tenham o recato e a sensibilidade exigida por uma situação difícil que milhares de trabalhadores estão a viver, com perda de emprego e de salário. A situação é crítica, complexa, demasiado difícil de gerir".

O ministro sublinhou ainda que não tinha conhecimento da ação de contratação dos dois diretores em Madrid. "Não sabia, nem tinha de saber. Ao contrário do que muitos dizem, eu não estou a gerir a empresa. O que me foi dito é que estava em causa a saída do responsável comercial de carga em Espanha, saiu voluntariamente, e era preciso substituí-lo. A prática normal é que seja substituído por alguém que conheça o mercado em concreto. É uma prática de gestão normal. Não há um processo de recrutamento aberto, o que há é a necessidade de substituir alguém que vai sair voluntariamente e que deve ser procurado no mercado em concreto", afirmou.

"Todos os que estão envolvidos num processo muito complicado de reestruturação da TAP tenham o recato e a sensibilidade exigida por uma situação difícil que milhares de trabalhadores estão a viver, com perda de emprego e de salário. A situação é crítica, complexa, demasiado difícil de gerir".

Contactada pelo Polígrafo, fonte oficial da TAP esclarece que "tendo tomado conhecimento de uma publicação nas redes sociais na qual intervêm, a título pessoal, dois trabalhadores da companhia, com responsabilidades na área dos recursos humanos, e dado o momento que a TAP vive, em que a todos são pedidos sacrifícios, decidiu o Conselho de Administração da TAP abrir, de imediato, um processo de inquérito seguido dos procedimentos disciplinares aplicáveis a esta situação".

"Neste momento delicado da vida da companhia, o Conselho de Administração expressa a sua solidariedade para com todos os trabalhadores da TAP e apela ao bom senso e recato de todos", acrescenta a fonte.

A companhia aérea explica ainda que o "responsável comercial do negócio de Carga em Madrid está de saída da empresa (por iniciativa própria). A TAP precisa de recrutar um novo responsável para a TAP Air Cargo no mercado espanhol, uma função que exige um know-how muito específico do negócio de Carga - que tem registado crescimentos significativos na TAP - e um profundo conhecimento do mercado espanhol".

"Neste momento delicado da vida da companhia, o Conselho de Administração expressa a sua solidariedade para com todos os trabalhadores da TAP e apela ao bom senso e recato de todos".

A polémica já levou o Bloco de Esquerda (BE) a enviar hoje várias questões ao Governo. O partido questionou sobre se o Ministério das Infraestruturas e da Habitação tinha conhecimento da situação, se confirma que a TAP está a contratar novos trabalhadores em Madrid (e quantos), bem como qual a justificação para a contratação de novos trabalhadores na capital espanhola ao mesmo tempo decorre um processo de despedimento coletivo em Lisboa.

"Como explica o Governo, o principal acionista da TAP, que contrate em Madrid no mesmo momento em que despede em Lisboa? Para este Grupo Parlamentar esta decisão é inaceitável e exigimos o esclarecimento cabal da situação. Assim, exigimos que o Governo venha esclarecer se o despedimento de efetivos está a ser compensado com a contratação de trabalhadores a prazo, com menos salário, direitos e condições de trabalho. Se o Governo está a aproveitar este momento de crise para limpar a empresa para depois logo de seguida vendê-la", pode ler-se no documento enviado pelo BE.

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Avaliação do Polígrafo:

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