Existem muitas incógnitas na Covid-19, principalmente pela falta de dados e de estudos sobre a doença. À medida que o tempo passa e o número de infetados e mortos continua a aumentar, o futuro é uma das principais questões que tem sido debatida. Entre as várias vertentes está a resposta do sistema imunitário dos pacientes recuperados face a este vírus. Muitos questionam se o Covid-19 causa imunidade. O Polígrafo colocou essa questão a vários especialistas e verificou que ainda há mais questões do que conclusões.

“Provavelmente – ou muito provavelmente – sim”, diz Luís Garcia, imunologista e investigador no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa (IMM). “Não temos dados suficientes para ter a certeza baseada nos dados, mas todas as evidências apontam nessa direção. Logo, o mais provável é que confira imunidade. O tempo pelo qual essa imunidade se vai estabelecer é outro problema”, explica.

Os níveis de imunidade e o tempo que o organismo vai ficar protegido são ainda incógnitas. Se existem doenças – como é o caso do sarampo – em que o paciente fica imune para o resto da vida, outras há cujos anticorpos têm de ser renovados por diversas vezes – caso do tétano, em que é necessário reforçar as defesas de dez em dez anos tomando uma vacina. Para já, os investigadores acreditam que a Covid-19 deverá estar entre as doenças com imunidade temporária que poderá ser renovada.

Com o pouco que se sabe, já é possível afirmar que os anticorpos produzidos atacam o vírus e protegem a pessoa. “O exemplo mais claro para mostrar que se gera imunidade é o facto de estar a ser utilizado para tratamento o soro de pessoas que se recuperaram – esse soro tem anticorpos. O que se tem estado a verificar é que esses anticorpos administrados em pessoas que ainda não conseguiram produzir anticorpos e estão numa fase aguda da doença conseguem neutralizar o vírus”, prossegue o investigador.

Para já, os investigadores acreditam que a Covid-19 deverá estar entre as doenças com imunidade temporária que poderá ser renovada.

Filipe Froes, pneumologista, defende que “os dados preliminares apontam para uma necessidade de melhor caracterizar essa possibilidade”. “Não existem dados concretos. Do ponto de vista teórico, esse é o conceito que se procura; do ponto de vista prático, precisam de ser melhor validados os dados disponíveis para chegar a essa conclusão”, acrescenta manifestando uma esperança que essa imunidade se venha a confirmar.

“A questão é qual o grau de proteção de durante quanto tempo é que esses anticorpos conferem. É aí que está a dúvida, por isso é preciso fazer mais testes”, remata o pneumologista.

Luís Garcia compara o SARS-CoV-2 a outros vírus com propriedades semelhantes e coloca a possibilidade de se criar uma imunidade de grupo numa sociedade que foi atingida pelo COVID-19. Ao atingir um determinado nível de imunidade, o vírus irá continuar a propagar-se na sociedade, mas não irá provocar doença nos indivíduos uma vez que estes já estão imunes. “A pessoa não vai estar doente porque ainda tem imunidade, apesar de poder estar a diminuir. Isso faz com que haja um novo reforço da imunidade e pode gerar-se um estado de equilíbrio em que apesar da imunidade se perder com o tempo, a imunidade de grupo e da população vai-se mantendo devido a este fenómeno”, esclarece.

Filipe Froes, pneumologista, defende "não existem dados concretos. Do ponto de vista teórico, esse é o conceito que se procura; do ponto de vista prático, precisam de ser melhor validados os dados disponíveis para chegar a essa conclusão”, acrescenta manifestando uma esperança que essa imunidade se venha a confirmar.

Os testes serológicos são uma forma de identificar se os indivíduos que foram infetados por SARS-CoV-2 têm anticorpos depois de terem recuperado da doença. No entanto, estes testes devem ser feitos têm algumas limitações, entre elas o momento em que são feitos, como explicou a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, esclareceu em conferência de imprensa realizada a 8 de abril: “Um teste serológico só deve ser feito quando já há uma subida de anticorpos e esse teste será útil só na fase de convalescença da doença.”

“A ciência não nos permite dizer exatamente qual é esse tempo adequado porque nós podemos já ter anticorpos ao fim de 15 dias ou ao fim de 20 dias e esses anticorpos ainda não significarem um nível protetor”, explicou ainda Graça Freitas, avançando que Portugal está a “aprender mais uma vez com a experiência de outros países para perceber como é que, depois de uma infeção por este novo coronavírus, é o comportamento da imunidade do nosso corpo”.

Os testes serológicos não são adequados para o diagnóstico e identificação do vírus, mas sim para analisar e medir a resposta imunológica do organismo. No entanto podem ser uma opção para identificar pacientes de Covid-19 assintomáticos – indivíduos que apesar de terem sido contaminados não tiveram qualquer sintoma da doença. “Aquilo que vão avaliar ou medir é os anticorpos que são produzidos pelo sistema imunitário em resposta ao vírus, ou seja, as nossas defesas”, explica o investigador Luís Garcia. “As pessoas que se curaram – em que o vírus foi eliminado – e as pessoas que nem sequer souberam que estiveram infetadas – porque as manifestações clínicas foram demasiado ligeiras ou porque não tiveram nenhumas manifestações clínicas, como acontece –vão ficar com anticorpos. E ao medir esses anticorpos nós sabemos quais as pessoas que foram expostas ao vírus e que desenvolveram anticorpos e ficaram imunes ao vírus”, prossegue.

“As pessoas que se curaram – em que o vírus foi eliminado – e as pessoas que nem sequer souberam que estiveram infetadas – porque as manifestações clínicas foram demasiado ligeiras ou porque não tiveram nenhumas manifestações clínicas, como acontece –vão ficar com anticorpos", explica o investigador Luís Garcia.

No entanto, o investigador do IMM alerta que é preciso ter cautela sobre a realização massiva dos testes na população, defendendo que é preciso examinar e estudar a melhor forma de aplicar estas ferramentas de deteção de anticorpos para obter um melhor resultado. “Estes testes – mesmo sendo testes muito fiáveis, mesmo sendo testes muito precisos – têm sempre alguma margem de erro.  Tipicamente a margem de erro destes testes comerciais serológicos que estão em circulação acerta nos positivos na casa dos 96%”, deixando 4% de falsos positivos. Isto significa que apesar da deteção dos anticorpos ser uma ferramenta importante, “é desadequado começar a testar toda a gente sem conhecimento da forma correta de fazer estes testes”.

Para Margarida Saraiva, presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia (SPI) e investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (I3S), são precisamente os anticorpos que vão dar a resposta que todos procuram. “O facto de nós percebermos se realmente ficamos imunes ou não é muito importante por dois motivos: primeiro porque se nós tivermos garantia que estamos imunes podemos voltar a ser expostos diminuindo bastante o risco de infeção e de um segundo pico de Covid-19, pelo menos para as pessoas que estejam imunes; segundo porque levanta grandes expectativas para o desenvolvimento de uma vacina”, esclarece.

“Percebendo a respostas imunológica e percebendo como é que um individuo fica mais protegido, nestes casos de uma infeção por SARS-CoV-2, é um passo muito grande para perceber como é que vamos direcionar a vacina. Perceber a quantidade, a qualidade dos anticorpos produzidos e a durabilidade vai ser fundamental”, conclui a investigadora.

Como funciona a imunidade do organismo?

Quando um indivíduo é contaminado por um vírus, o sistema imunitário reage produzindo anticorpos para matar o agente patogénico e defender o organismo do ataque. No entanto, quando o vírus é novo – como acontece com o SARS-CoV-2 – o processo pode demorar algum tempo, uma vez que é necessário produzir novos anticorpos capazes de atacar aquele vírus desconhecido.

“O sistema imunitário evoluiu no sentido de se conseguir adaptar a qualquer composição de qualquer microrganismo que nos infete”, diz Luís Garcia. “A desvantagem desta capacidade é que demora entre quatro a sete dias para o sistema imunitário conseguir produzir anticorpos e células que são capazes de se dirigir a estas formas que são novas para o sistema imunitário”, continua.

Durante este processo são produzidos dois tipos de imunoglobulinas que têm diferentes objetivos. As imunoglobulinas-M (IgM) são os chamados anticorpos que têm como função atacar o microrganismo agressor, enquanto as imunoglobulinas-G (IgG) guardam a memória dos anticorpos produzidos para os poderem gerar novamente caso este vírus volte a atacar o organismo. São as IgG que concedem a imunidade ao indivíduo.

“O sistema imunitário evoluiu no sentido de se conseguir adaptar a qualquer composição de qualquer microrganismo que nos infete”, diz Luís Garcia.

“É este o princípio da vacina”, acrescenta Filipe Froes. “As vacinas no fundo apresentam uma parte inativa dos microrganismos que não provoca a doença mas que faz com que o organismo, ao contactar com elas, passe a ter a resposta de memória que lhe vai conferir uma capacidade de evitar que a doença se desenvolva quando o organismo contrair o microrganismo a sério. As vacinas desencadeiam IgG”, esclarece.

Atualmente existem cerca de 140 projetos científicos para procurar uma vacina contra o Covid-19, dos quais mais de 70 já têm uma vacina em desenvolvimento e cinco já estão a ser testadas em humanos, enumera Luís Garcia. No entanto, devido à urgência que existe para encontrar uma forma de travar a propagação desta doença, os processos de investigação estão a ser acelerados. “O desenvolvimento nunca foi tão rápido como agora: uma das vacinas que está a ser testada demorou dois meses desde que se identificou a proteína que é usada até à vacina estar a ser testada em humanos. Isto nunca aconteceu no passado, isto demora anos tipicamente”, comenta o investigador ressalvando que mesmo assim todas as questões de segurança da vacinação estão a ser tidas em conta.

Avaliação do Polígrafo: 

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