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Documento secreto comprova que Governo ucraniano preparava ataque militar em Donbass?

Ucrânia
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
A invasão da Ucrânia ainda não tinha sido iniciada e o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, já tinha lançado falsas suspeitas em torno de um suposto plano do Governo ucraniano de ataque militar nas regiões separatistas de Donetsk e Lugansk, em Donbass. Mas só no dia 9 de março é que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia divulgou no Twitter imagens de um documento secreto que revelam ordens militares no âmbito dessa operação agendada para março de 2022. Verdade ou falsidade?

“Durante a operação militar especial, alguns documentos classificados do comando da Guarda Nacional da Ucrânia foram adquiridos pelos militares russos. Estes documentos confirmam a preparação secreta do regime de Kiev de uma operação ofensiva no Donbass, em março de 2022“. Esta mensagem começou por ser publicada no Telegram pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, a par de seis imagens dos alegado documento que, posteriormente, também foram difundidas no Twitter.

“O Ministério da Defesa da Rússia publica a ordem secreta original do comandante da Guarda Nacional da Ucrânia, coronel-general Nikolai Balan, datada de 22 de janeiro de 2022. A ordem, levada ao comando da Guarda Nacional da Ucrânia, explica o plano de preparação de um dos grupos de choque para as operações ofensivas na chamada zona de ‘Operação de Forças Conjuntas’ em Donbass”, acrescenta-se no mesmo texto.

Mais, recordam-se ainda as “declarações da liderança do regime de Kiev de que não havia planos para uma tomada armada das repúblicas populares de Lugansk e Donetsk”, alegando que “os originais dos documentos militares secretos da Guarda Nacional da Ucrânia provam claramente a falsidade dessas declarações“.

Além do Ministério dos Negócios Estrangeiros, também a agência de notícias estatal russa “Tass” difundiu estas alegações, mas será que estamos perante informação verdadeira?

Questionada pela “StopFake.org“, plataforma ucraniana de verificação de factos, a Guarda Nacional da Ucrânia (GNU) garantiu que o documento em causa não tem qualquer relação com “com o planeamento de uma operação ofensiva”. Desde logo porque “o plano de uma operação ofensiva deve prever a determinação de alguns objetivos específicos que não estão no documento“.

Além disso, a GNU sublinha que o documento não é secreto: “Na gestão de negócios secretos, há um procedimento de registo diferente. Deve haver um carimbo e ninguém assina para familiarização no verso da documentação secreta”. Mais, “esta é uma ordem padrão para a realização de sessões regulares de treino conjunto das Forças Armadas da Ucrânia e da Guarda Nacional da Ucrânia em Lviv. Tais ordens são emitidas regularmente todos os anos. Este documento é sobre a organização de um campo de treino“.

Importa aqui salientar que Lviv situa-se no extremo ocidental do território ucraniano, enquanto as regiões de Donetsk e Lugansk (no Donbass) estão no extremo oposto.

No dia 5 de março, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, reuniu com hospedeiras de bordo da companhia aérea russa Aeroflot, lançando um aviso: qualquer país que tente impor uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia será considerado como participante na guerra. Um excerto do vídeo com essas declarações foi transmitido por estações de televisão em todo o mundo e também nas redes sociais, onde surgiu a teoria conspirativa de que, em certo momento, a mão direita de Putin terá "atravessado" um microfone, suposta "prova" da utilização de um "fundo verde" para efeitos visuais. Mais, em vários "posts" alega-se que o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, terá gozado com essa manipulação das imagens.

Embora a região de Donbass tenha sido mencionada no documento, “não era uma parte proeminente do documento nem declarada num contexto ofensivo”, assegurou Christo Grozev, diretor executivo da “Bellingcat” (plataforma holandesa de jornalismo de investigação), em declarações ao “PolitiFact“.

De acordo com a “Science Feedback“, o documento inclui instruções para configurar o treino de batalhões no sentido de cumprirem tarefas nas áreas de Donetsk e Lugansk. No entanto, não há informações adicionais sobre quando, onde e que tipo de operações iriam ser realizadas. Assim sendo, o documento agora revelado não comprova a alegação de que o Governo da Ucrânia estaria “sem sombra de dúvida” a preparar um ataque militar ao Donbass em março de 2022.

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