O documentário de 2009 "House of Numbers: Anatomy of an Epidemic" ("Casa dos Números: Anatomia de uma Epidemia" em português) do canadiano Brent Leung, que tem vindo a circular de forma viral nas redes sociais, questiona todo o conhecimento científico sobre a SIDA (síndrome de imunodeficiência adquirida) e o vírus da imunodeficiência humana (VIH) que causa a doença, reunindo depoimentos de médicos, cientistas e jornalistas.

O documentário tem sido qualificado como parcial e tendencioso por muitos cientistas e críticos e é considerado um exemplo do negacionismo da SIDA. De acordo com o jornal norte-americano The New York Times, 18 dos médicos e cientistas entrevistados no documentário declararam que Leung, o realizador, "agiu de forma enganosa e antiética" ao entrevistá-los. Mais: acusaram o filme de "perpetuar a pseudociência e os mitos".

O médico britânico Ben Goldacre, num texto de opinião escrito no The Guardian, afirmou que o filme em questão se apresenta como uma  "jornada de um jovem cineasta para descobrir uma ciência por trás do HIV mas que, na realidade, não passa de "uma peça triste e perniciosa da propaganda negacionista da SIDA."

O médico britânico Ben Goldacre, num texto de opinião publicado no jornal The Guardian, escreveu mesmo que o filme em questão se apresenta como uma "jornada de um jovem cineasta para descobrir uma ciência por trás do VIH" mas que, na realidade, não passa de "uma peça triste e perniciosa da propaganda negacionista da SIDA."

"Todas as ideias-tipo estão lá. São os medicamentos antirretrovirais que causam os sintomas da SIDA. Ou é a pobreza. Ou é o uso de drogas. O VIH não causa SIDA. As ferramentas de diagnóstico não funcionam, e a SIDA é simplesmente um diagnóstico falso e fraudulento para vender medicamentos antirretrovirais para uma ampla gama de doenças não relacionadas - e os medicamentos também não funcionam", acusou.

O Polígrafo já verificou várias fake news semelhantes às que são difundidas neste documentário, sobre teorias da conspiração relacionadas com o HIV. Uma das mais persistentes é a que defende que o VIH foi criado em laboratório para reduzir a população mundial.

Afinal de onde vem o vírus da SIDA?

Apesar de ter sido descoberto na década de 80 do século XX por investigadores americanos, a origem do vírus da SIDA remonta aos anos 20 e o primeiro caso detetado foi em Kinshasa, atualmente a capital da República Democrática do Congo. Estudos realizados sobre a origem deste vírus concluíram que o VIH resulta de uma mutação de um vírus que ataca o sistema imunitário dos símios, conhecido como SIV (sigla inglesa para vírus de imunodeficiência em símios), tal como acontece com VIH. Apesar de não ser possível confirmar qual o processo de transmissão dos símios para os humanos, a teoria mais commumente aceite tem como base a caça e consumo da carne de símios infetados com o SIV.

"Estas teorias da conspiração obviamente não são verdadeiras. São notícias totalmente infundadas e não têm nenhuma evidência científica, do conhecimento e das boas práticas de estudo", afirma Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, ao Polígrafo.

"Parece que uma combinação de fatores em Kinshasa no princípio do século XX criou uma 'tempestade perfeita' e proporcionou o aparecimento do VIH", explicou à Agência Sinc Oliver Pybus, professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford e autor principal do artigo "VIH epidemiologia. O início da propagação e ignição epidémica do VIH-1 na população humano". O VIH-1 da subespécie M é a mutação do vírus mais comum na população mundial.

A expansão para o resto do mundo começou na década de 60 devido à ampliação das redes de transporte e à promiscuidade sexual na região. O vírus chegou ao Haiti aquando do regresso dos profissionais haitianos que trabalhavam na República Democrática do Congo em 1960 e daí propagou-se para o continente americano. O facto de haver uma grande população infetada no continente africano e no Haiti originou teorias da conspiração segundo as quais os americanos queriam reduzira população mais pobre dessas duas regiões.

Graça Freitas
A diretora da Direção Geral de Saúde (DGS), Graça Freitas créditos: © 2020 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

"Toda a informação de saúde que puder ser dada é importante, não só sobre a SIDA, sobre as doenças de transmissão sexual, mas sobretudo incidindo sobre a prevenção. Obviamente quando se explica medidas de prevenção explicam-se os mecanismos da doença, como é que aparecem, o que as provoca e toda a informação que puder ser dada", avisa a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, ao Polígrafo.

As teorias da conspiração em Portugal

Com o advento da internet e das redes sociais os mitos e rumores foram ganhando mais rapidez de propagação, tornando-se muitas vezes em fenómenos globais. Em Portugal "essas teorias não têm muito relevo", afirma ao Polígrafo Graça Freitas, diretora-geral da Saúde. "Não estou a dizer que as pessoas não leiam, não vejam ou não saibam o que se passa na internet. Uma coisa é ler coisas na internet, outra é ter uma repercussão interna", explica.

Em 2017, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), existiam cerca de 36,9 milhões de habitantes que viviam com o vírus de HIV, residindo a maior parte (mais de 69%) no continente africano.

"Estas teorias da conspiração obviamente não são verdadeiras. São notícias totalmente infundadas e não têm nenhuma evidência científica, do conhecimentoe das boas práticas de estudo", reforça ainda a Diretora-Geral da Saúde, que sublinha que se tratam de "movimentos que aparecem e reaparecem" trazendo ideias que "não são novas".

Em 2017, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), existiam cerca de 36,9 milhões de pessoas que viviam com o vírus de HIV, a maior parte delas (mais de 69%) oriundas do continente africano.

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