“A Gronelândia não é afetada por "aquecimento global" provocado pelo Homem,  porque a camada superior do oceano ao redor da Gronelândia, aproximadamente os 600 pés superiores, consiste em água fria que flui do Ártico, os 600 pés abaixo dos primeiros vêm de climas mais quentes no sul, trazidos pelas correntes da esteira do Atlântico, num processo natural que se desenvolve há 18 mil anos, desde o fim da última era glaciar”, escreve-se numa publicação partilhada no Facebook.

Segundo o mesmo post, “o novo mapa revela que o dobro ou até o quadruplicado do número de geleiras do que se pensava anteriormente se estende até a zona quente”.

“Na verdade, cerca de 80% do gelo perdido da geleira Petermann, uma das maiores da Gronelândia, vem da água quente derretendo a camada de gelo por baixo, e não de icebergs, no entanto, o processo não é completamente bem compreendido, pois a forma e a geometria dos fiordes da Gronelândia podem complicar as interações entre a camada de gelo e o oceano. Descobrir como o leito rochoso, o gelo e a água interagem é uma pesquisa nova e sem conclusões definitivas”, conclui-se.

No entanto, a explicação dada no post acima transcrito, por si, não justifica uma espécie de imunidade da Gronelândia ao aquecimento global provocado pelas ações humanas, uma vez que este reflete-se também no aumento da temperatura da água dos oceanos, logo tem impacto nas “geleiras” que se estendem “à zona quente”.

Mas algum documento de referência em matéria de clima e ambiente confirma esta tese de “imunidade” da maior ilha do mundo ao aquecimento global?

O Polígrafo consultou a edição mais recente de dois relatórios essenciais para a análise atualizada do tema das alterações climáticas: o “Estado do Clima Global 2021” e o relatório do “Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas” da ONU.

O “Estado do Clima Global 2021”, elaborado pelo  Organização Meteorológica Mundial (agência da ONU), não só não faz referência ao aludido no post como estrutura a apresentação dos elementos concretos que recolheu à luz das mudanças provocadas pelas alterações climáticas, não sendo a Gronelândia exceção a esta lógica, como é notório logo nas mensagens-chave do documento: “A Gronelândia experimentou um degelo excepcional em meados de agosto e a primeira chuva registada em Summit Station, o ponto mais alto do manto de gelo da Gronelândia a uma altitude de 3.216 m.”.

Nas página 38 e 39 do relatório, encontra-se uma associação mais concreta entre as alterações climáticas e o degelo na Gronelândia. Na parte intitulada “Impactos climáticos nos ecossistemas” pode ler-se: “Espécies que são menos capazes de se relocalizar são projetadas para experimentar altas taxas de mortalidade e declínio. As mudanças climáticas estão também a afetar a Gronelândia e as placas de gelo do Antárctico e a aumentar as hipóteses de o Oceano Árctico ficar sem gelo no verão, perturbando ainda mais a circulação oceânica e os ecossistemas árcticos.”

Já o sexto e mais atual relatório do IPCC -  “Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade” - tem abundantes referências ao degelo e às alterações climáticas, sempre no  pressuposto de que o segundo tem influência direta no primeiro.

É no capítulo 16 deste documento também produzido sob a égide das Nações Unidas (“Riscos-chave que atravessam setores e regiões”) que essa correlação, até pelo respetivo enquadramento, se evidencia mais: “Há grande convicção na existência de comportamento limiar do manto de gelo da Gronelândia num clima mais quente (…), porém há pouca concordância sobre a natureza dos limites e os pontos de inflexão associados. Da mesma forma, a probabilidade de perda de massa acelerada e irreversível da Antártida aumenta com o aumento das temperaturas, mas os limites ainda não podem ser identificados de forma inequívoca. (…) Deve-se notar que a inclusão de tais resultados de baixa probabilidade e alto impacto dominados por processos não bem compreendidos que afetam a dinâmica do gelo nas grandes calotas polares da Gronelândia, e em particular a Antártica, também melhoraria as projeções do nível do mar para outros cenários (…).” No Cross-Chapter Paper 6, dedicado às regiões polares, esta relação também é transversal ao texto.

É, pois, falso que a Gronelândia não seja afetada pelas alterações climáticas, designadamente o aquecimento global provocado pelas atividade humana.
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EMIFUND

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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