“Suspender a participação nos grupos de trabalho da Liga Centralização e solicitar ao Governo uma audiência com caráter de urgência, informando-o de que, neste momento, não estão reunidas as condições para avançar com este processo”. Este é o ponto 6 do comunicado do Benfica divulgado na passada segunda-feira, que contém esta e outras medidas em consequência das “arbitragens das últimas jornadas do campeonato e da final da Taça de Portugal”.
Recorde-se que a “comercialização centralizada dos direitos televisivos e multimédia dos jogos de futebol das I e II Ligas” é uma decisão do Conselho de Ministros de 25 de fevereiro de 2021 (Decreto-Lei n.º 22-B/2021), com aplicação prevista a partir da época 2028/29.
O Benfica – bem como a Liga Portugal e todos os seus membros – estão obrigados a acatá-la e esta suspensão implicará, no mínimo, uma perturbação no andamento dos trabalhos com vista a encontrar uma fórmula (cujo montante a receber é o principal fator) consensual entre todos os clubes.
O Benfica era defensor da centralização dos direitos televisivos?
Não, longe disso. O clube, pela voz dos seus dirigentes, manifestou várias vezes grande relutância relativamente a esta medida, no essencial, por considerar que se bastava a si próprio para esse negócio e por entender que os outros emblemas acabariam por beneficiar da dimensão do clube encarnado e do respetivo maior interesse nos seus jogos.
Ainda esta semana, na “3.ª conferência Bola Branca”, realizada pela Rádio Renascença, Nuno Catarino, responsável máximo financeiro (CFO) do Benfica e administrador da Benfica SAD, apresentou o racional da posição benfiquista com números: “Se fizermos uma lista dos 20 jogos mais vistos em Portugal da Liga, 17 são do Benfica. E são 17 porque só há 17 jogos. No limite, temos de pôr isto em valor.”
Recuando a 15 de junho de 2024, na Assembleia Geral do Benfica, Rui Costa abordou o mesmo tema e declarou aos sócios: “Sabemos bem o valor que temos. Acreditamos que nesta altura, e até prova em contrário, valemos mais sozinhos do que integrados numa centralização cujos valores finais e matriz de distribuição está ainda longe de ficar definida.”
Justamente um ano antes, a 15 de junho de 2023, também em Assembleia Geral, o presidente do Benfica já tinha falado na centralização dos direitos televisivos, dessa vez com uma intervenção mais contundente: “Toda a gente fala muito desta transição, ainda não há datas. O único dado que há, e o presidente da Liga [Pedro Proença] sabe perfeitamente qual é a nossa posição, e apesar de a lei ser governamental, é que o Benfica não irá cumprir lei nenhuma se se sentir prejudicado.”
Este conjunto de afirmações levou, inclusive, o então presidente da Liga Portugal, Pedro Proença, a sentir necessidade de marcar uma posição firme daquele organismo, o que sucedeu, por exemplo, a 25 de setembro de 2024, num almoço-debate no Internacional Club of Portugal (“Os grandes desafios do futebol português”), quando afirmou: “Queremos internacionalizar a nossa Liga com os 306 jogos e não com 17 de um clube que acha que sozinho vale mais do que a Liga inteira.”
Com efeito, é verdadeiro que o Benfica já tinha ameaçado não cumprir a lei no que respeita à centralização aos direitos televisivos, independentemente das arbitragens. Fê-lo pela voz de Rui Costa, em junho de 2023, na Assembleia Geral do clube.
_________________________
Avaliação do Polígrafo Futebol:

