"Porque se comemora o Dia Internacional da Mulher? No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte-americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho. (…) A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano", lê-se em várias publicações divulgadas recorrentemente nas redes sociais, com especial incidência a cada 8 de março.

A história é tida como verdadeira, mas não passa de uma junção de três factos históricos datados de anos distintos: dois deles aconteceram nos Estados Unidos da América (EUA) e um deles na Rússia, ainda antes da criação da hoje extinta União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas (URSS). Para verificar os factos, o Polígrafo consultou a página da ONU e o portal oficial para o Dia Internacional da Mulher, ambos com relatos minuciosos da história.

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1908

As origens do Dia Internacional da Mulher remontam a 1908, ano de grande inquietação e debate crítico a acontecer entre as vozes femininas. A opressão e a desigualdade estimulavam as mulheres no sentido de estas se tornarem mais vocais e ativas na campanha pelas mudanças. Assim, em 1908, cerca de 15 mil mulheres marcharam pela cidade de Nova Iorque, EUA, exigindo menos horas de trabalho, melhores salários e o direito ao voto, fazendo coro às sufragistas europeias, mulheres que lutavam pelo direito ao voto em Londres e Paris.

O primeiro Dia Nacional da Mulher foi celebrado nos EUA a 28 de fevereiro desse ano. O Partido Socialista da América comemorou este dia em homenagem à greve das trabalhadoras têxteis, de que falamos no parágrafo supra.

Ainda assim, o primeiro marco da luta feminista nos EUA aconteceu muito antes, em 1848. Importa salientar dois nomes: Elizabeth Cady Stanton e Lucretia Mott, que congregaram centenas de pessoas na primeira convenção dos direitos das mulheres nos EUA, realizada em Nova Iorque. Exigiam direitos civis, sociais, políticos e religiosos para as mulheres, através de uma Declaração de Sentimentos e Resoluções. Nesse ano, nasceu um movimento.

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1911

Este é outro ano fulcral na história do Dia Internacional da Mulher. A 25 de março de 1911, 129 mulheres morreram num incêndio que deflagrou na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque. A maioria das vítimas era imigrante e judaica. Os relatos desse dia contam que as mulheres estavam trancadas no 9º andar. Muitas morreram queimadas, outras de queda, depois de se atirarem em desespero pelas janelas. 

Este incêndio viria a contribuir para a especificação de critérios rigorosos sobre as condições de segurança no trabalho e para o crescimento dos sindicatos que despontavam como consequência da revolução industrial. A atenção estava, assim, direcionada para a legislação trabalhista dos EUA, que se tornou um dos focos dos eventos subsequentes do Dia Internacional da Mulher.

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1917

O terceiro facto histórico que deu origem ao mito foi a greve de tecelãs e costureiras de Petrogrado (atual São Petersburgo), na Rússia, em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial. No dia 23 de fevereiro, mediante o calendário russo (8 de março no ocidental), as socialistas celebraram o seu primeiro Dia da Mulher. A greve por "pão e paz" obrigou-as a sair das fábricas e a "colecionar" operários e operárias, naqueles que foram dias de confrontos com a polícia e com os soldados. 

Em março de 1917, os protestos atingem um ponto de não retorno. As trabalhadoras saem à rua logo a 7 de março, na véspera do Dia Internacional da Mulher, e a contestação espontânea alastra até ao dia 13, quando os guardas fiéis ao czar perdem o controlo das ruas de Petrogrado. Estava feita a Revolução de Fevereiro, segundo o calendário juliano, que viria a ser trocado pelo gregoriano logo após 1917.

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Em suma, o Dia Internacional da Mulher tem sido comemorado desde o início dos anos 1900, uma época de grande expansão e turbulência no mundo industrializado. Originalmente conhecido como o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, as suas raízes estão na luta socialista, e não feminista, do início do século XX.

Embora alguns dias nacionais tenham sido celebrados antes de 1911, o dia 18 de março desse ano marcou o primeiro Dia Internacional, seguindo uma proposta discutida durante a segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1910, da comunista alemã Clara Zetkin. Mais tarde, a comemoração passaria a ter lugar no dia 8 de março.

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Avaliação do Polígrafo:

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Falso
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