Vários vídeos publicados nas redes sociais garantem que desvitalizar um dente pode provocar cancro. Num documentário de 2018 que chegou a estar disponível na Netflix, o realizador afirmava que esse e vários outros tratamentos dentários eram responsáveis por diversas doenças, como problemas de coração e cancro.
No início de 2019, quando a longa-metragem foi adicionada à plataforma de streaming, vários especialistas alertaram para o perigo das informações ali veiculadas — diziam ser falsas e potencialmente perigosas. “Root Cause” acabou por ser retirado do catálogo da Netflix, mas a empresa nunca explicou o motivo para o ter feito.
Será que desvitalizar dentes pode mesmo causar cancro?
A resposta é simples: não. Não há qualquer evidência científica credível que relacione tratamentos endodônticos com o desenvolvimento de cancro.
Os estudos que mencionam essa possibilidade não provam causalidade — dizer que muitas mulheres que desvitalizaram dentes têm cancro na mama não prova que seja a desvitalização a “culpada” do cancro, o mais provável é que sejam duas condições relacionadas com idade —, são geralmente realizados in vitro (em ambiente laboratorial, com células isoladas), e os próprios investigadores admitem que são necessários estudos em modelos vivos para qualquer conclusão.
Um exemplo frequentemente citado pelos defensores da teoria é um estudo publicado no International Journal of Molecular Science. O estudo analisou o efeito de substâncias produzidas por bactérias orais (comuns em dentes com infeções) em células humanas. Os investigadores observaram alterações na proliferação celular e em algumas propriedades mecânicas das células após exposição a estas bactérias.
Contudo, o próprio estudo deixa claro que os resultados são preliminares e obtidos in vitro, e que não se podem tirar conclusões clínicas a partir deles. Ou seja, é incorreto afirmar que este tipo de investigação prova que desvitalizar um dente causa cancro.
A base das alegações que se vão repetindo nas redes sociais remonta aos anos 20 do século passado. Weston Price, um médico canadiano, criou a “teoria da infeção focal” — alegava que várias doenças crónicas são causadas por infeções localizadas que se disseminam provocando infeções noutras zonas do corpo. Foi graças a essa teoria que, durante muito tempo, se arrancavam dentes em vez de os tratar. Muitas das pessoas que acreditam que desvitalizar dentes causa cancro afirmam também que retirá-los é a melhor solução.
Mas a teoria foi desacreditada ao longo do século XX e não resistiu ao escrutínio científico. Na realidade, a ciência atual aponta exatamente no sentido oposto, afirmando que as desvitalizações são seguras, eficazes e recomendadas para preservar dentes naturais que estejam afetados por cáries ou outras condições. A polpa dentária (tecido interno com nervos e vasos sanguíneos) é removida, o canal é limpo e desinfetado, e depois selado com um material obturador.
Um estudo publicado no Journal of Endodontics concluiu que dentes tratados através de desvitalizações, quando restaurados adequadamente, podem manter-se funcionais durante décadas.
Preservar dentes naturais também tem vantagens a nível funcional, estético e económico (é mais barato do que colocar um implante). Manter um dente evita a reabsorção óssea que ocorre após extrações, preserva a mastigação, o alinhamento dentário e a harmonia facial. De acordo com uma análise de 2022 publicada no BMC Oral Health, mais de 65% dos pacientes preferem preservar o dente natural, mesmo em casos em que a extração seja mais barata.
A extração pode, por vezes, ser necessária se houver infeções muito avançadas ou fraturas irreparáveis, por exemplo. O consenso entre os especialistas é claro: sempre que é possível salvar o dente, essa é a melhor escolha.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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