"O deputado municipal do Chega de Lisboa, Bruno Mascarenhas, afirmou que só quer que a cidade acolha refugiados da guerra da Ucrânia que sejam 'verdadeiros ucranianos'. O homem diz que não temos que atender refugiados do Nepal ou do Bangladesh só porque viviam na Ucrânia e estão a fugir da guerra porque não são 'verdadeiros ucranianos'. Só faltou exigir cabelo loiro e olhos azuis a atestar a nacionalidade", destaca-se numa publicação no Facebook, datada de 13 de abril.

É verdade que o deputado municipal proferiu tais declarações?

Bruno Mascarenhas, um dos três deputados municipais eleitos pelo Chega em Lisboa, tomou a palavra durante a Assembleia Municipal de Lisboa, que decorreu na passada terça-feira, dia 12 de abril. Dirigindo-se à vereadora dos Direitos Humanos e Sociais Laurinda Alves, disse: "Também hoje ouvi a senhora vereadora, no âmbito da sexta comissão, a falar da questão dos refugiados e dos migrantes. Para o Chega, uma coisa é receber todos os refugiados de guerra que chegam da Ucrânia. E outra coisa é receber gente que vem do Bangladesh, do Nepal, que nada têm que ver com esta questão."

"Estes senhores vêm da Ucrânia, mas nós não temos de os atender. Eles vêm, mas são de outros países, não são da Ucrânia", reforçou ainda Mascarenhas.

Em reação às declarações do deputado municipal, Laurinda Alves (independente eleita pela coligação PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança), considerou "lamentável que se dê voz a uma voz que exprime racismo" na casa da democracia da cidade de Lisboa.

"Senhor deputado, a sua voz foi uma voz racista e é absolutamente intolerável. Vou-lhe dizer o número de pessoas que o senhor deixaria de fora como sendo pessoas de condição infra-humana, à porta da cidade, à porta do país, numa cave do mundo que imagine que possa existir: 53 pessoas do Bangladesh, 93 pessoas do Nepal, 345 pessoas da Índia, 107 pessoas do Paquistão, 199 pessoas da Bielorrússia. Se quiser faça as contas e diga-me o que é que faz a estas pessoas, porque olhando à sua cor de pele e olhando à sua cultura de origem, o senhor não as aceita, mas estas pessoas residiam todas na Ucrânia, são tão refugiadas como as pessoas ucranianas e amanhã pode acontecer isto consigo", expôs Laurinda Alves. Seguiu-se um forte aplauso por parte da grande maioria dos deputados.

Questionada sobre as declarações efetuadas pelo deputado municipal em Lisboa, fonte oficial do Chega afirma que "apoia a Ucrânia e os ucranianos que lutam pela democracia e pela independência da sua nação". Mas refere que "não os confunde com outro tipo de refugiados que não fogem de guerra nenhuma e que apenas vêm para Portugal à procura de subsídios estatais".

Ao Polígrafo, Bruno Mascarenhas refere que realizou, de facto, "uma distinção entre aqueles que são nacionais da Ucrânia, que vivem no seu país que está a ser atacado e que são obrigadas a fugir e que não têm para onde ir, em relação aos migrantes económicos que foram para um determinado país, que infelizmente entrou em guerra".

  • Ventura disse que acolher refugiados é "desperdiçar dinheiro" mas agora quer receber ucranianos?

    Está a ser recordada nas redes sociais uma intervenção (gravada em vídeo) do líder do Chega no Parlamento, em dezembro de 2021, quando acusou o Governo de "desperdiçar dinheiro" a acolher refugiados. Em contraste com declarações mais recentes, em março de 2022, quando proclamou estar "de braços abertos para receber" os refugiados ucranianos "que fogem da guerra, da fome e da miséria". Confirma-se essa aparente contradição, ou as frases em causa estão descontextualizadas?

"Esse migrante económico tem duas hipóteses, ou se mantém no país  [em guerra] ou foge. E pode fugir para o seu país de origem, que não é o caso de um ucraniano que não tem para onde ir", defende ainda o deputado municipal do Chega. Mascarenhas acrescenta: "Aquilo que temos conhecimento é que há redes de tráfico humano e de mão de obra que se estão a dirigir para as fronteiras da Ucrânia e que se introduzem no fluxo das pessoas que fogem e acabam por encontrar este expediente para entrar no mercado da União Europeia."

"Não sou nem nunca foi racista, vivi vários anos fora do país, onde fui muito bem acolhido. Acho que é uma acusação completamente torpe. (...) A maior parte das pessoas percebeu o sentido e a distinção que foi feita. Não está em causa cor de pele, não está em causa racismo de qualquer espécie, o que está em causa é se, enquanto cidade, temos capacidade de absorver todas as pessoas, sobretudo quando tantas vezes nos esquecemos dos que cá estão", conclui o deputado municipal.
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