"No Parlamento italiano finalmente alguém partiu a loiça toda, contra o canalha Gates e contra os vendidos do Governo italiano na pessoa desse bandalho Giuseppe Conti que fez da Itália o cavalo de Tróia da Europa. Pela voz da deputada Sara Cunial a verdade foi dita no Parlamento italiano, um bravo a esta brava mulher. Digam agora que é tudo teorias da conspiração", destaca o autor de uma das publicações em causa.

A deputada italiana Sara Cunial "disse a verdade" ao denunciar planos de Bill Gates para reduzir a população mundial?

Não. Trata-se de uma alegação falsa que circula desde há anos nas redes sociais, tendo aliás já sido desmentida pelo Polígrafo em artigo de verificação de factos publicado no dia 29 de setembro de 2019.

"Há décadas, [Bill Gates] trabalha no desenvolvimento de planos de despovoamento [...] Ele diz, nas palavras textuais retiradas de sua declaração: ‘Se fizermos um bom trabalho com as novas vacinas, saúde e saúde reprodutiva, podemos diminuir a população mundial de 10% a 15%’. E continua, entre aspas: 'Somente um genocídio pode salvar o mundo'", afirmou a deputada Sara Cunial, em discurso no Parlamento da Itália, a 14 de maio de 2020.

O equívoco tem origem numa apresentação de Bill Gates numa conferência TED realizada em fevereiro de 2010. Durante a palestra - intitulada como “Inovando para zero!” -, o fundador da Microsoft debateu sobre a importância de reduzir as emissões de dióxido de carbono na produção energética, de forma a combater o aquecimento global e melhorar as condições de vida para todos os países, especialmente para os países em desenvolvimento. Ao analisar a quantidade de CO2 libertado por cada cidadão, Bill Gates apelou à necessidade de “fazer alterações para trazer esse número para próximo de zero”.

Quando analisou a variante “Pessoas”, Bill Gates começou por dizer que “há 6,8 mil milhões de pessoas no mundo atualmente e está a encaminhar-se para nove mil milhões”, acrescentando que “se fizermos um ótimo trabalho em novas vacinas, no sistema de saúde, serviços de planeamento familiar, poderíamos diminuir isso, talvez, em 10 a 15%. Mas vemos um aumento de cerca de 1,3%”.

Ou seja, de facto Bill Gates referiu que “se fizermos um ótimo trabalho em novas vacinas, no sistema de saúde, serviços de planeamento familiar, poderíamos diminuir isso, talvez, em 10 a 15%”, como é citado na publicação em análise. No entanto, ao contrário do que se afirma no texto, o filantropo está a referir-se a uma diminuição de “10 a 15%” no crescimento populacional previsto e não no número de pessoas existentes no mundo.

Esta acusação dirigida a Bill Gates não é nova. Já em março de 2017, o Snopes - plataforma norte-americana de fact-checking - desmentiu uma outra publicação que na altura também acusava o empresário e filantropo de ter admitido que as vacinas foram concebidas para que os governos pudessem reduzir a população mundial.

Trata-se de uma ideia falsa e que deturpa as palavras de Bill Gates, assim como as suas iniciativas no âmbito da Bill & Melinda Gates Foundation, uma organização de apoio social que tem investido na disponibilização de vacinas a crianças sem possibilidades financeiras e que habitam nos países em desenvolvimento.

Importa salientar que Sara Cunial, deputada independente (após ter sido excluída do grupo parlamentar do Movimento 5 Estrelas em 2019), desde há anos que assume posições contra a vacinação de pessoas. Em meados de 2018 chegou mesmo a afirmar que vacinar a população era um "genocídio gratuito". As invectivas contra Bill Gates, por entre diversas teorias de conspiração, também têm sido recorrentes.

No discurso proferido a 14 de maio, além da afirmação já analisada e classificada como falsa, Sara Cunial proferiu mais duas afirmações falsas, pelo menos. A saber: "Graças às suas vacinas, ele [Bill Gates] conseguiu esterilizar milhões de mulheres na África"; "[Bill Gates] causou uma epidemia de poliomielite que paralisou 500 mil crianças na Índia".

Em recente artigo de verificação de factos da AFP explica-se detalhadamente porque são falsas. Por exemplo, no que respeita aos supostos 500 mil casos de poliomielite na Índia, "segundo dados da OMS, entre 2000 e 2017 foram registados 17 casos de poliomielite derivados da vacinação na Índia".

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações “Falso” ou “Maioritariamente Falso” nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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