O final da primeira parte do debate entre os sete candidatos à Presidência da República, na RTP, ficou marcado pela discussão sobre o papel do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal. Em defesa dos prestadores de saúde privados, André Ventura, deputado e líder do partido Chega, salientou que, nas listas de espera do SNS, há pessoas que aguardam "mais de 3 mil dias por uma consulta".

"Nós hoje temos problemas enormes no Serviço Nacional de Saúde, sem dúvida. Os enfermeiros são um desses pontos nevrálgicos, têm sido pessimamente mal tratados por este Governo que há seis anos prometeu que lhes iria dar das melhores compensações da Europa, estamos nas piores da Europa. (…) Agora, não podemos é partir daqui para dizer que toda a saúde privada é uma desgraça. A ADSE hoje já tem um sistema de gestão privado e está a funcionar. Eu vou dar-lhe um exemplo: nós temos em alguns distritos pessoas à espera mais de 3 mil dias por uma consulta. É uma vergonha", declarou.

Os 3 mil dias apontados por Ventura correspondem a cerca de oito anos de espera por uma consulta no SNS. Será que este valor corresponde à realidade?

Para responder a esta pergunta, o Polígrafo recorreu ao portal do Ministério da Saúde, onde se podem consultar os tempos médios de espera de cada unidade do SNS. Entre hospitais, centros de saúde e maternidades, esta análise inclui os 55 estabelecimentos nacionais com serviço de urgência e partilha de informação. 

No cômputo geral, o tempo médio de espera apontado para uma consulta hospitalar é de 150 dias, ou de 60 dias para casos prioritários e 30 dias para casos muitos prioritários. Se estiver à espera de uma cirurgia, terá que aguardar em média 180 dias, período estabelecido para casos normais de doença não oncológica.

Embora estes sejam valores médios, o Polígrafo fez as contas ao tempo máximo de espera por uma consulta em cada uma das instituições incluídas na base de dados. O período mais alto encontrado, aquando da publicação deste artigo, diz respeito ao tempo de espera por uma consulta de Genética Médica no Hospital de Braga. São 1.751 dias, cerca de cinco anos, numa fila que engloba um total de 318 pessoas. Seguem-se as consultas de Cardiologia no Hospital da Guarda, com uma previsão de 1.527 dias de espera. Ramos como a Otorrinolaringologia e a Psicologia estão também associados a tempos de espera muitas vezes superiores a um ano.

Pese embora os tempos acima assinalados, a média dos intervalos de espera mais elevados, quer para consulta hospitalar quer para cirurgia, entre todas as 55 instituições analisadas, é de 523 dias. Ora, recuando ao tempo máximo registado (1.751 dias), verificamos que em nenhum momento o valor apontado por Ventura corresponde à realidade patente nos dados fornecidos pelo SNS.

Contactada pelo Polígrafo, fonte oficial da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) confirma que "em nenhum dos casos se verificam tempos de espera de oito anos", pelo que é falso que haja intervalos registados na ordem dos 3 mil dias.

__________________________________

Avaliação do Polígrafo:

Siga-nos na sua rede favorita.
Falso
International Fact-Checking Network