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Debates Europeias. Marta Temido: “Ao nível europeu, 74% das PME tem como maior problema a escassez de mão-de-obra”

Política
O que está em causa?
No debate das rádios, que se realizou hoje de manhã, a candidata do PS às eleições para o Parlamento Europeu criticou o Governo por causa de um "apertar de regras em relação àquilo que se exige às pessoas que vêm para o país", sublinhando que "a grande preocupação" das pequenas e médias empresas (PME) é "a escassez de mão-de-obra". Tem fundamento?
© Agência Lusa / António Pedro Santos

Instada a comentar as novas regras para a imigração, antes de serem formalmente apresentadas pelo Governo liderado por Luís Montenegro, a cabeça-de-lista do PS nas eleições para o Parlamento Europeu notou – no debate desta manhã transmitido por quatro rádios – que o até então anunciado demonstrava um “apertar de regras em relação àquilo que se exige às pessoas que vêm para o país, mas também uma outra intenção” no sentido de “estreitar aquilo que é a tipologia de migrantes para os quais” está disponível “para ser país de acolhimento”.

Segundo apontou a ex-ministra da Saúde, isso é algo que “preocupa” o PS, “na medida em que, quando se diz que precisamos apenas de uma imigração mais qualificada, estamos a desguarnecer um vasto leque de setores sociais em torno dos quais há uma enorme dependência de mão-de-obra”. Nesta caso, “mão-de-obra menos qualificada”, nomeadamente em setores como a “restauração”, a “construção civil” ou o “setor social”.

Na mesma intervenção, Temido realçou: “E aquilo que nós sabemos é que, ao nível europeu, a grande preocupação das pequenas e médias empresas [PME] é, exatamente, a de que 74% delas tem como maior problema a escassez de mão-de-obra.”

Esta última alegação tem fundamento?

Dados publicados pela Comissão Europeia (CE) em setembro de 2023 indicam que cerca de “três quartos (74%) das PME na Europa afirmam que, neste momento, enfrentam concretamente escassez de competências para, pelo menos, um posto de trabalho na sua organização”. Uma realidade que também se verifica em contexto português, com a mesma percentagem de empresas a manifestar esse desafio.

Em causa estão dados que foram, inclusive, citados pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no âmbito do seu discurso, perante o Parlamento Europeu, sobre o Estado da União, a 13 de setembro de 2023. “A escassez de mão-de-obra e de competências está a atingir níveis recorde – tanto aqui como em todas as principais economias. 74% das PME afirmam estar a enfrentar escassez de competências”, afirmou.

Porém, segundo o relatório “Emprego e desenvolvimento – Evolução na Europa 2023“, também publicado pela Comissão Europeia, esclarece-se que a “escassez de competências é muitas vezes aproximada pela percentagem de empregadores que referem dificuldades em encontrar trabalhadores com as competências adequadas“.

Esta fonte aponta ainda que as “dificuldades de recrutamento das empresas podem ser motivadas por vários fatores”, tais como a “falta de competências entre os candidatos a emprego”, mas também “más práticas de recrutamento, de retenção e de gestão de recursos humanos, elevada procura de substituição devido à reforma, a necessidade de preencher novos empregos criados em resultado das transições ecológica e digital, ou empresas que não querem ou não podem oferecer salários e condições de trabalho competitivos”.

Ou seja, poderia entender-se, numa primeira leitura, que a percentagem indicada diz respeito às PME que manifestam problemas de escassez de competências – e não propriamente de falta de mão-de-obra. Mas, ao Polígrafo, fonte oficial da campanha de Marta Temido explicou que “os dois pontos estão necessariamente interligados” e que a “escassez de mão-de-obra está diretamente associada às competências que se procuram” nas empresas.

A mesma fonte notou ainda que é “a própria CE que na leitura deste tipo de temas relaciona a noção de falta de mão-de-obra com a noção de falta de mão-se-obra com as qualificações adequadas à função”, tendo remetido para dados divulgados em novembro passado pela Direção-Geral do Emprego, dos Assuntos Sociais e da Inclusão desta instituição europeia – em que se nota que “78% das PME da UE têm dificuldade em recrutar trabalhadores com as competências adequadas”.

Mas, de facto, após notar que “o grau de dificuldade das PME em encontrar trabalhadores com as competências adequadas varia consoante o país, o setor e a profissão”, esta entidade ressalva que, no que diz respeito às profissões, estas organizações referem enfrentar “as maiores dificuldades para recrutar operadores de máquinas, artesãos e trabalhadores do comércio qualificados”. Acrescenta-se ainda que, nestes ofícios, “em geral, 71% das PME na indústria transformadora, 70% na indústria, 61% no comércio retalhista e 54% nos serviços enfrentaram dificuldades no recrutamento”.

Em conclusão, são estatísticas que não dizem apenas respeito à mão-de-obra dita qualificada, ao contrário do que poderia parecer inicialmente – embora seja de notar a tentativa de Temido em associar estes números à procura de funcionários por parte de empresas nos setores da “restauração” ou da “construção civil”.

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Avaliação do Polígrafo:

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