Num post publicado na passada quarta-feira, 12, a propósito do atentado de Estrasburgo ocorrido no dia anterior, a Associação Portugueses Primeiro, que conta com mais de três mil seguidores no Facebook, escreveu um longo texto sobre o comentador  e ex-dirigente bloquista Daniel Oliveira, sob o título “Allah Akbar = Vamos dar uma lição a esses xenófobos”.

Nele, é recuperada uma citação de um texto de Oliveira sobre imigrantes, datado de 14 de Junho de 2006: “Bem lhes podem fechar a porta. Eles (os imigrantes) entrarão pela janela. Felizmente tomarão conta das nossas cidades (...) Que venham muitos e façam disto um país”, pode ler-se numa das passagens destacadas pela Portugueses Primeiro, uma organização que se apresenta no Facebook como o resultado “da vontade de cidadãos portugueses mobilizarem-se face a questões que afectam as suas vidas diárias e para as quais os órgãos decisórios se mostram alheios”.

A citação é o ponto de partida para um texto em que é dado a entender que, ao “abrir a porta” aos imigrantes, o comentador do “Eixo do Mal” criaria igualmente espaço para a entrada do terrorismo islâmico em território português. “O terrorismo islâmico é uma criação do Estado Social dominado por elites arrogantes que criaram o mesmo modelo multiculturalista que nos quer agora eliminar”, defende a Associação, que explica o caso francês com a circunstância de o país estar “a pagar a factura de ter uma população islâmica que já pesa mais de 11% da população".

Contactado pelo Polígrafo, Daniel Oliveira confirma a veracidade da citação, mas sublinha que se encontra descontextualizada. “É um elogio provocador ao cosmopolitismo de que muito me orgulho”, diz. Só que os autores do post usaram apenas uma parte: “Retiraram o último parágrafo da crónica do meu livro ‘A Década dos Psicopatas’, publicada em papel no Expresso, ignorando os anteriores, onde há um contexto”. E que contexto é esse? A forma como os imigrantes eram [mal] tratados em Portugal na altura.

Daniel oliveira

A crónica em causa tem como título “Os Lisboetas” e inspira-se no filme de Sérgio Tréfaut, de 2004, com o mesmo nome, onde é retratada a forma como os imigrantes eram recebidos na capital portuguesa – uma capital que, sublinha Daniel Oliveira, sem imigrantes “não é uma cidade”, apenas “uma aldeia grande”.

Ao Polígrafo, a Associação Portugueses Primeiro nega qualquer tentativa de manipulação do texto de Oliveira, utilizado apenas "para ajudar a enquadrar um pensamento político que tem prejudicado o debate necessário sobre imigração de massas, identidade e o fracasso do multiculturalismo nas suas diversas variáveis”.

Em resumo, poder-se-á dizer que, ainda que a citação seja verdadeira e conste de uma crónica de Daniel Oliveira, o próprio afirmou que esta não passa de uma provocação. Provocação essa que, sem contexto, foi politicamente instrumentalizada para alicerçar um post anti-imigração.

Avaliação do Polígrafo:

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