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Custos com o pessoal da TAP aumentaram em 148 milhões de euros (+121%) no último trimestre de 2023?

Sociedade
O que está em causa?
De 122,4 milhões de euros no quarto trimestre de 2022 para 270,4 milhões de euros no quarto trimestre de 2023, quando se voltou a registar um resultado líquido negativo (apesar dos lucros recorde na totalidade do ano de 2023). Estes dados constam de um gráfico partilhado nas redes sociais. O Polígrafo verifica se têm fundamento.
© Agência Lusa / José Coelho

Está a ser difundido nas redes sociais – do Facebook ao X/Twitter – um gráfico com dados sobre a evolução dos custos com o pessoal da TAP entre 2022 e 2023, destacando-se um aumento substancial no quarto e último trimestre de 2023. Terá sido também registado nesse trimestre um resultado líquido negativo de -26 milhões de euros, após dois trimestres sucessivos de lucros, o que ainda assim não invalidou um saldo final positivo de 177,3 milhões de euros nesse ano, recorde de lucros anuais da companhia aérea portuguesa.

“A TAP será sempre um ninho de mafagafos“, comenta-se num post de 28 de março no Facebook que exibe o gráfico em causa. O qual tem origem num tweet do dia anterior, com a indicação de que os dados foram recolhidos a partir de relatórios oficiais da TAP. Na perspetiva do autor desse tweet, o lucro recorde que a TAP registou em 2023 “esconde o regresso aos prejuízos no quarto trimestre de 2023”, quando “os custos com o pessoal aumentaram 148 milhões de euros face ao período homólogo (+121%), resultado dos novos acordos com os trabalhadores”.

Mais, “esse aumento de custos com o pessoal representa cerca de 14% das receitas, que é precisamente a queda em pontos percentuais que se verifica na margem do resultado operacional (EBIT), que passou de +11,7% para -2,6%”, sublinha. Para depois concluir da seguinte forma: “Qual é o preço a pagar pela paz social? Vendam a TAP, por favor. E rápido!”

De facto, os dados do gráfico estão inscritos nos relatórios e contas da TAP (pode consultar aqui). Os custos com o pessoal saltaram de 122,4 milhões de euros no quarto trimestre de 2022 para 270,4 milhões de euros no quarto trimestre de 2023, o que perfaz um aumento de 148 milhões de euros (+121%).

No “Comunicado de Divulgação de Resultados” emitido pela TAP no dia 27 de março justifica-se que “embora o aumento dos custos [operacionais de tráfego e não apenas com o pessoal] seja relevante, o processo dos novos acordos de empresa foi crucial para restabelecer as bases de uma operação fluida e eficiente“.

A aprovação dos novos acordos de empresa ocorreu no quarto trimestre de 2023, exceto os acordos dos pilotos que já estavam em vigor desde o terceiro trimestre, pelo que a TAP registou os custos associados a 2023 no último trimestre, assim como a reposição dos cortes sobre as remunerações. “Desta forma, o quarto trimestre de 2023 foi impactado por custos extraordinários (54,4 milhões de euros), por custos com efeitos retroativos (até pelo menos ao início do terceiro trimestre) que são referentes a outros trimestres (21,5 milhões de euros) e pela reposição dos cortes de remuneração igualmente referentes a outros trimestres (3,7 milhões de euros)”.

Não contabilizando esses custos não recorrentes, o valor total de custos com pessoal seria de 190,8 milhões de euros, ainda assim um incremento de 68,4 milhões de euros (+55,9%) em comparação com o período homólogo de 2022.

Outro elemento a ter em conta é que, no mesmo “Comunicado de Divulgação de Resultados”, a TAP reconhece que os custos operacionais recorrentes aumentaram 32,2% face a 2019 (último ano imediatamente antes dos efeitos da pandemia e do plano de reestruturação), “principalmente devido ao aumento dos custos com combustíveis e custos com o pessoal”.

Ou seja, mesmo excluindo os custos não recorrentes, verifica-se um aumento dos custos com o pessoal face a 2019, apesar de uma diminuição do número total de trabalhadores da TAP: 8.100 no final de 2019; 7.558 no final de 2023.

Em suma, o gráfico apresenta dados corretos, mas carece de informação e contexto no que respeita ao impacto de custos extraordinários e com efeitos retroativos no último trimestre de 2023, resultantes da entrada em vigor dos novos acordos de empresa firmados com os trabalhadores. Além da reposição dos cortes de remuneração.

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Avaliação do Polígrafo:

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