Tudo começou com um comentário numa publicação do Correio da Manhã e um artigo intitulado “Diretora-geral da Saúde apela aos pais para autoagendarem vacinação dos filhos”: “O meu filho tem 10 anos tomou a primeira dose da vacina [e] hoje teve uma paralisia facial. O hospital pediu o número do lote porque há mais casos.”

A história de Rodrigo tornou-se rapidamente viral. Num vídeo publicado no Facebook, a mãe explicou que a criança recebeu a vacina no dia 18 de dezembro de 2021 e foi às urgências do hospital Fernando Fonseca – também conhecido como hospital Amadora-Sintra – no dia 1 de janeiro de 2022, tendo sido diagnosticado com paralisia facial periférica. Avança ainda que os profissionais de saúde lhe pediram o número do lote da vacina que o filho tomou, argumentando que “tinha havido mais casos relacionados com a vacina da Pfizer”.

Questionado pelo Polígrafo, “o Hospital Fernando Fonseca confirma que observou, nas urgências pediátricas, no dia 1 de janeiro de 2022, uma criança de 10 anos de idade com o diagnóstico de paralisia facial periférica, a quem tinha sido administrada a primeira dose da vacina contra a Covid-19 no dia 18 de dezembro”. A situação foi notificada ao Infarmed – entidade que regula as denúncias de possíveis efeitos secundários dos medicamentos. No entanto, garantem que, “até à data, foi a primeira notificação reportada por este hospital”.

O Infarmed reconhece que o referido caso foi notificado no sistema de farmacovigilância no dia 1 de janeiro de 2022. “Tal como acontece com qualquer medicamento, uma coincidência temporal não implica uma relação causal, pelo que esta questão encontra-se a ser tratada pelo Infarmed em conjunto com a Unidade Regional de Farmacovigilância de Lisboa, Setúbal e Santarém, no sentido de se proceder à recolha de dados adicionais para a sua análise e avaliação”, explica.

O regulador avança ainda que “não foi registado nenhum outro caso de uma suspeita similar em Portugal relacionado com a administração de vacinas contra a Covid-19 nesta faixa etária” e que “não há qualquer informação sobre suspeita de irregularidades em nenhum lote de vacinas contra a Covid-19 destinadas à imunização de crianças”.

“De destacar que, de entre os milhões de vacinas inoculadas a crianças na União Europeia (UE), apenas foi notificado um caso similar, na plataforma europeia que agrega todas as suspeitas de reações adversas dos países da UE (EudraVigilance), tendo essa notificação ocorrido na Polónia, sem qualquer relação com o lote administrado em Portugal.”

A paralisia facial periférica está identificada no folheto informativo da vacina como um efeito secundário raro da vacina da Pfizer, ou seja, que ocorre em menos de uma em cada mil pessoas inoculadas. Também no documento emitido pela Agência Europeia do Medicamento, onde é apresentada uma revisão do fármaco e são enumeradas as razões que levaram à sua aprovação, é referido que “fraqueza nos músculos de um lado da face (paralisia facial periférica aguda ou paralisia) ocorreu raramente em menos de um em cada mil pessoas”.

Até ao momento, apenas a vacina da Pfizer recebeu autorização para ser administrada a crianças entre os cinco e os 11 anos. Apesar das vacinas pediátricas conterem um terço das doses destinadas aos adultos, os efeitos secundários esperados são semelhantes.

Um estudo publicado na "JAMA Internal Medicine", em abril de 2021, mostra uma “análise desproporcional” aos casos reportados de paralisia facial após a administração das vacinas de mRNA – Pfizer e Moderna. Esta investigação tem como o objetivo verificar se existe um aumento significativo de casos de paralisia facial após a inoculação deste tipo de vacinas. Para isso, os investigadores utilizaram os dados recolhidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) até ao dia 9 de março de 2021: entre os 133.833 relatos de efeitos secundários, foram identificados 844 eventos de paralisia facial.

“Paralisia facial isolada após a vacinação tem sido relatado como case report durante décadas para quase todas as vacinas virais e acredita-se que seja imunomediada ou induzida por reativações virais (por exemplo, reativação de uma infeção pelo vírus herpes”, escrevem os investigadores. Concluem ainda que, “se existe uma ligação entre paralisia facial e vacinas de mRNA contra a Covid-19, o risco é muito baixo, tal como com outras vacinas virais”.

Até ao dia 31 de dezembro de 2021 – o que não inclui o caso do Rodrigo, aqui reportado – foram identificados em Portugal seis casos de efeitos secundários entre 95.797 crianças inoculadas, quatro dos quais foram considerados graves. “Na faixa etária dos 5-11 anos, os seis casos notificados incluem arrepios, dor no local de vacinação, mal-estar-geral, pirexia, petéquias e um caso de miocardite, sendo que este último ocorreu em criança de 10 anos com evolução clínica de cura”, pode ler-se no relatório atualizado no passado dia 7 de janeiro.

Em suma, é verdade que o hospital Fernando Fonseca recebeu o caso de uma criança de 10 anos com sintomas de paralisia facial periférica no dia 1 de janeiro de 2022, 14 dias após a criança ter tomado a primeira dose da vacina contra a Covid-19. O caso foi reportado ao regulador e está a ser analisado. A possibilidade de ocorrerem situações de paralisia facial como efeito secundário da vacina da Pfizer é rara, o que significa que a frequência é de menos de uma em cada mil pessoas.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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