A pandemia de Covid-19 causou mudanças no dia-a-dia, especialmente ao nível do comportamento social dos cidadãos. O ato de cumprimentar familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho tornou-se um ritual de risco. Por isso, abraços, beijos e apertos de mãos estão a ser substituídos, muitas vezes, por um toque com o cotovelo, seja em momentos mais formais ou em reuniões de amigos. 

Recentemente foram publicados vários artigos nos quais se afirma que este cumprimento acarreta riscos de contágio pelo novo coronavírus e que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) desaconselha esta prática. Será verdade? 

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, publicou, a 7 de março de 2020, um conjunto de recomendações que incluíam conselhos sobre a forma mais segura de saudar os outros: “Ao cumprimentar as pessoas, o melhor é evitar os toques de cotovelos porque estes colocam-no a menos de um metro da outra pessoa. Eu gosto de colocar a minha mão no meu coração quando cumprimento pessoas atualmente”, escreveu na sua conta de Twitter, aquando do início da pandemia provocada pelo SARS-CoV-2. 

OMS Covid

Poucos dias depois, Ghebreyesus reforçou que “‘a mão no coração’ é uma boa forma de cumprimentar os seus amigos, colegas, vizinhos… durante a Covid-19, mas mais importante é manter-se, a si e aos outros, a salvo do coronavírus”.

Na página oficial da OMS não é referido que o cumprimento com o cotovelo é um gesto que coloca em risco a saúde. Ainda assim, o que é aconselhado é que se “cumprimente as pessoas com um aceno de mãos, um aceno com a cabeça ou uma vénia”, uma vez que “os vírus respiratórios podem passar através dos apertos de mãos e tocando nos olhos, nariz e boca”. Na secção de perguntas e respostas é também destacada a importância de manter “pelo menos um metro de distância” dos outros. 

Covid-19 aperto de mãos

As declarações do diretor-geral da OMS voltaram a ganhar notoriedade recentemente. Tudo porque a economista e comentadora espanhola Diana Ortega afirmou no Twitter que “a OMS desaconselha cumprimentar com o cotovelo: o melhor é levar a mão ao coração”. Ortega escreveu ainda que “o diretor da OMS, Tedros [Adhanom Ghebreyesus] recusa este cumprimento porque não se mantém a distância de segurança e pode haver transmissão do vírus através da pele”.  Apesar de o texto ter sido repartilhado pelo diretor-geral da OMS a 12 de setembro, é necessário referir que em momento algum Ghebreyesus disse que o vírus podia ser transmitido pela pele.  

Ortega Covid-19 OMS

Graça Freitas: gesto com "baixo risco"

O cumprimento é um gesto social que se exprime de várias maneiras nas diferentes culturas. O aperto de mão tem sido o cumprimento formal por excelência nos países ocidentais, mas é uma das formas de saudação que acarreta maior risco de transmissão. O Exploratorium de São Francisco, na Califórnia, analisou a capacidade de transmissão de diferentes formas de cumprimento com base num estudo, publicado em 2014, que quantificou a transmissão da bactéria de E. Coli nas várias situações. Os autores deste artigo aconselham a que se opte por cumprimentos que não impliquem contacto físico durante a pandemia de Covid-19, tais como o “abraço no ar”, o “V de vitória”, o “namaste”, entre outros.

Investigadores aconselham a que se opte por cumprimentos que não impliquem contacto físico durante a pandemia de Covid-19, tais como o “abraço no ar”, o “V de vitória”, o “namaste”, entre outros.

A diretora-geral da saúde, Graça Freitas, considera, no entanto, que o cumprimento com o cotovelo é um gesto com "baixo risco"que parece "não contribuir, nem deixe de contribuir", para evolução da pandemia. "É um contacto muito rápido, não parece que constitui um risco porque é rápido e as pessoas muitas vezes estão a usar máscara", disse na conferência de imprensa de atualização dos números da Covid-19 em Portugal, no passado dia 14 de setembro.

O distanciamento físico tem sido uma das principais bandeiras na luta contra a propagação da Covid-19, a par com a higiene respiratória e a lavagem das mãos. Uma revisão de literatura publicada no The Lancet concluiu que as medidas tomadas para impor “pelo menos um metro de distanciamento físico estão associadas com uma maior redução na infeção, e que distâncias de dois metros podem ser mais eficazes”. Com base na ciência, os países implementaram diferentes regras de distanciamento social que variam entre um e dois metros. Em Portugal, a norma imposta é de 1,5 metros.

A 11 de setembro, Graça Freitas deixou um apelo aos portugueses para que mantivessem o afastamento físico e diminuíssem o convívio. “O convívio tem de ser diminuído, estamos numa pandemia”, reforçou igualmente durante o habitual encontro com a imprensa, aproveitando para relembrar que o afastamento físico é a forma mais eficaz de travar a propagação da doença, incluindo em contextos familiares.

“O convívio tem de ser diminuído, estamos numa pandemia”, disse a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, durante uma conferência de imprensa.

“Quando vamos ver [como surgiram] os surtos é: famílias, famílias, famílias e depois [de âmbito] social, laboral”, explicou Graça Freitas, citada pelo “Diário de Notícias”. A responsável pelo organismo defendeu que “as famílias têm de entender que, se vivem em casas diferentes, em núcleos diferentes, em bolhas diferentes, quando se juntam estão a juntar mundos diferentes e basta uma pessoa infetada" para contagiar os restantes familiares.

Nas últimas três semanas, o número de pessoas com Covid-19 em Portugal tem vindo a aumentar e a líder da Direção-Geral da Saúde deixa um aviso: “Os casos estão a subir e todos temos de aumentar o nosso nível de alerta”. Por isso, o conselho é que siga as regras de higiene respiratória, lave frequentemente as mãos, use máscara e mantenha o distanciamento social – mesmo na hora de cumprimentar os familiares e amigos.

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