O impacto da Covid-19 na gravidez e a possibilidade de a mãe transmitir o vírus ao feto continuam a ser estudados pela comunidade científica, até porque o primeiro caso reportado de Covid-19 foi há menos de nove meses, o tempo da gestação humana normal. Alguns artigos publicados avançam que as mulheres grávidas podem desenvolver formas mais graves da doença e estudos recentes apresentam a possibilidade – ainda que rara – de o feto ser contaminado ainda no útero da mãe. 

Será que estes dados se confirmam?

Ao Polígrafo, João Bernardes, presidente do Colégio da Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, diz que, à luz do conhecimento atual, as mulheres grávidas não correm maior risco de contrair a doença: “Os primeiros dados apontaram que as grávidas não apresentavam um risco acrescido de Covid-19, quando comparadas com a população geral." Uma opinião secundada por Nuno Clode, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, que confirma igualmente que a doença “não afeta mais as grávidas do que as não grávidas”.

A Direção-Geral da Saúde (DGS) não colocou as grávidas nos grupos de risco da pandemia. No entanto, no seu site é possível ler que "durante a gravidez, as mulheres também podem estar em risco de doença grave, como observado em casos de outras infeções relacionadas com o coronavírus”, incluindo a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e a gripe. As indicações e recomendações da DGS são semelhantes às da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Existe um conjunto de alertas específicos para as mulheres grávidas, uma vez que, segundo a DGS, “durante a gravidez, as mulheres também podem estar em risco de doença grave, como observado em casos de outras infeções relacionadas com o coronavírus

A possibilidade de as grávidas desenvolverem complicações mais graves em casos de doenças infeciosas não é surpreendente ou inédita. “Durante a gravidez, as infeções têm o potencial de serem mais graves, pela imunodeficiência que essa condição acarreta”, esclarece João Bernardes. “Além disso, as infeções com atingimento respiratório têm especial tendência para serem mais graves, pela diminuição da reserva respiratória própria da gravidez”, acrescenta.

Os resultados das investigações e o cenário em Portugal

Um dos primeiros estudos onde se defende que a população grávida é mais propícia a desenvolver uma forma grave da Covid-19 é um relatório do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), de 26 de junho. Os investigadores norte-americanos concluíram que 1,5% das grávidas infetadas com o novo coronavírus tiveram de ser admitidas em unidades de cuidados intensivos e 0,5% necessitaram de recorrer a mecanismos de respiração mecânica. Por outro lado, entre as mulheres não grávidas, os valores registados foram de 0,9% e 0,3%, respetivamente. Ao todo, foram avaliadas mais de 8 mil pacientes gestantes e 83 mil voluntárias não grávidas, com idades entre os 15 e os 44 anos, que contraíram a doença nos Estados Unidos entre janeiro e junho.

Também um estudo publicado pelo International Journal of Gynecology and Obstetrics concluiu que no Brasil a taxa de mortalidade por Covid-19 é maior nas grávidas. Os investigadores analisaram os registos de grávidas e mães recentes contaminadas com Covid-19 entre 26 de fevereiro e 18 de junho, num total de 978 voluntárias. Foram notificadas 124 mortes, o que representa uma taxa de mortalidade de 12,7% entre a população obstétrica brasileira, cita a Agência Lupa. Este número é muito superior ao verificado  noutros países. No entanto, os investigadores deixam um alertam sobre o número total de gestantes infetadas que pode ser superior ao identificado no estudo devido à subnotificação dos casos.

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Em Portugal, “as taxas de mortalidade na população grávida não diferem muito das que se verificam na população em geral, para a mesma idade”, assegura Clode. Além disso, recorda, mulheres gestantes com doenças pré-existentes – como diabetes ou hipertensão – “têm maior risco de ter uma doença com pior evolução e, eventualmente, mortalidade”, à semelhança do que acontece para os pacientes em geral. 

Aliás, os dados referentes à população portuguesa – embora sejam ainda reduzidos – “apontam para que as grávidas tenham, até agora, sido menos atingidas e com menor gravidade do que a população geral, corrigida para a idade e o sexo”, recorda João Bernardes. Para o médico obstetra, “nos países com piores índices de assistência materno-infantil, em que a pandemia foi levada menos a sério ou onde se adotaram medidas mais liberais – como é o caso dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Itália e do Brasil – os dados apontam para casos mais graves de Covid-19 durante a gravidez, com atingimento não só das mães como também dos fetos”.

Transmissão da doença para o bebé

Em Portugal, há registo de um bebé que nasceu infetado com o novo coronavírus. “Neste momento, há evidência clara desse risco, embora tudo aponte para que sejam situações raras, nomeadamente em países como Portugal”, explica o mesmo especialista.

Há muito que ainda não se sabe sobre o tema e os casos conhecidos são escassos para que seja possível perceber como poderá ocorrer transmissão vertical – da mãe para o filho. “Apareceram dois ou três casos que demonstram que a transmissão vertical é possível”, assume o médico Nuno Clode, que considera que um número tão curto é insuficiente para tirar conclusões definitivas.

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créditos: Unsplash

Uma revisão de estudos publicada em início de julho pela revista científica Nature revelava dezenas de relatos de bebés que testaram positivo para o novo coronavírus. No entanto, os investigadores não conseguiram confirmar se tinha existido uma transmissão no útero materno ou se o contágio teria ocorrido durante o parto. Outro artigo, este publicado no The Pediatric Infectious Disease Journal , identificou vestígios do vírus na placenta de uma mulher de 37 anos que tinha sido diagnosticada com Covid-19. Outro ainda, também publicado na Nature, demonstrou, através de investigações virológicas e patológicas, a contaminação do feto no útero.

Em Portugal, o primeiro bebé a nascer infetado com Covid-19  foi identificado no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa. A criança nasceu prematura, com 34 semanas e dois dias, e apresentava sintomas graves da doença – nomeadamente pneumonia e falta de ar. No final de junho, um feto de oito meses morreu devido à infeção causada pelo novo coronavírus. Segundo uma biópsia pulmonar, o feto estaria infetado com o SARS-CoV-2. Antónia Nazaré, diretora do Departamento da Mulher do Hospital Fernando da Fonseca – mais conhecido como Hospital Amadora-Sintra –, explicou ao "Expresso" que “sendo o feto positivo para SARS-CoV-2 e tendo sido uma gravidez vigiada, pode presumir-se que a infeção esteve na origem da morte”.

A DGS admite a existência de estudos publicados sobre dois casos de recém-nascidos que testaram positivo, mas avança, no seu site oficial, que ainda “não é certa qual a via de contágio”. “Em estudos retrospetivos de uma série pequena de casos, o vírus não foi detetado em amostras de líquido amnéstico, sangue do cordão ou leite materno”, pode ler-se.

Também a OMS defende que, de acordo com o que se sabe atualmente, o vírus ativo não foi encontrado em amostras de fluído amniótico ou leite materno. Ou seja, a transmissão vertical da Covid-19 ainda não está comprovada, embora também não esteja descartada: até ao momento, é considerada rara.

Avaliação do Polígrafo: 

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