O ano de 2021 destaca-se logo no gráfico: uma coluna vermelha indica que houve mais de 10 mil relatos de miocardite ou pericardites no Sistema norte-americano de Relato de Efeitos Secundários da Vacinação (VAERS, na sigla inglesa). A descrição que acompanha a imagem não faz qualquer referência às vacinas contra a Covid-19, mas levanta a suspeita: “Alguém explique pois eu nem desconfio qual será a causa”, escreveu um utilizador do Facebook, com ironia.

Estará este aumento relacionado com as vacinas contra a Covid-19?

Sim, os dados estão relacionados com a vacinação contra a Covid-19, mas não permitem concluir que a miocardite é uma consequência direta das vacinas. O gráfico em questão foi desenvolvido pelo VAERS – uma plataforma onde médicos e cidadãos podem reportar situações de possíveis efeitos secundários de medicamentos e vacinas para análise futura – e faz parte de um conjunto de dados sobre a ocorrência de miocardites e pericardites associadas às vacinas contra a Covid-19. Neste relatório são comparados os relatos depois da primeira e da segunda dose, a idade em que são mais comuns e até qual a vacina tomada.

A vacina desenvolvida pela Pfizer é que apresenta uma maior percentagem de casos relatados de miocardite ou pericardite como possível efeito secundário. Segundo os dados do VAERS foram registados 9.940 casos. A Moderna, que surge em segundo lugar, teve 3.017.

No entanto, é importante frisar que os dados apresentados nesta página são referentes a relatos submetidos na plataforma, o que não significa que todos os casos tenham sido, de facto, efeitos secundários das vacinas em questão. Aliás, o Centro norte-americano de Controlo e Prevenção da Doença (CDC, na sigla inglesa) alerta que “os dados do VAERS sozinhos não conseguem determinar se a vacina causou os efeitos adversos reportados”.

“Esta limitação em particular tem causado confusão sobre os dados publicamente disponíveis, especificamente no que toca ao número de mortes reportadas. No passado tem havido momentos em que as pessoas interpretaram mal os relatórios de mortes na sequência da vacina como mortes causadas pelas vacinas; isso é um erro”, acrescenta o CDC.

Ao Polígrafo, a Comissão de Estudos da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), explica que “não deixando de proporcionar informação epidemiológica valiosa, os dados disponibilizados por esta plataforma não devem ser sobrevalorizados”. Uma vez que “não existe adjudicação independente dos eventos reportados, este sistema deve ser interpretado fundamentalmente como gerador de hipóteses e sinais de alerta clínicos e não como marcador inequívoco de causalidade entre uma determinada vacina e o alegado efeito adverso reportado”.

“Sabe-se, desde há longa data – mesmo antes da eclosão da pandemia por SARS-CoV-2 – que a maioria dos diagnósticos reportados nesta base de dados não são, na realidade, diretamente induzidos pelas vacinas, cumprindo apenas o pré-requisito de associação temporal com as mesmas, [o que é] insuficiente, claro, para o estabelecimento final de verdadeira causalidade”, acrescenta a SPC.

A Comissão de Estudos da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), explica que “não deixando de proporcionar informação epidemiológica valiosa, os dados disponibilizados por esta plataforma não devem ser sobrevalorizados”.

É verdade que a ocorrência de miocardites e pericardites foi identificada como um dos efeitos secundários raros das vacinas de mRNA – como a Pfizer, a Moderna e a da Janssen. “A literatura médica disponível faz também notar um aumento significativo do número de casos de miocardite/pericardite após a administração de vacinas anti-SARS-CoV-2 de mRNA”, uma situação que ocorre mais em adolescentes e jovens do sexo masculino, quando tomam a segunda dose da vacina. “Deste modo, podemos, com segurança, dar como confirmada a relação entre vacinação anti-SARS-CoV-2 e casos de miocardite/pericardite”, afirma o cardiologista.

A Comissão de Estudos da SPC esclarece ainda que o risco de desenvolver miocardites e pericardites está estimado, “na pior das hipóteses”, em duas em cada 100 mil administrações, na população em geral. No subgrupo populacional de maior risco, este risco sobe para uma em cada 10 mil administrações. “A apresentação de um gráfico com o mesmo âmbito, mas com base em frequências relativas poderia ser mais facilmente interpretável pela população geral, vinculando mais eficazmente a noção de que o risco de miocardite/pericardite associado à vacinação é, na realidade, modesto, além de assimétrico quanto ao escalão etário e ao sexo.”

A Comissão de Estudos da SPC esclarece ainda que o risco de desenvolver miocardites e pericardites está estimado, “na pior das hipóteses”, em duas em cada 100 mil administrações, na população em geral. No subgrupo populacional de maior risco, este risco sobe para uma em cada 10 mil administrações.

No caso particular da vacina da Pfizer, o CDC reconhece que “casos raros de miocardite e pericardite em adolescentes e jovens adultos têm sido reportados mais frequentemente depois da segunda dose do que da primeira dose de uma das vacinas contra a Covid-19 de mRNA (Pfizer-BioNTech ou Moderna)”. No entanto sublinha que “estes relatórios são raros e os benefícios conhecidos e potenciais da vacinação contra a Covid-19 ultrapassam os riscos conhecidos e potenciais, incluindo o possível risco de miocardite e pericardite”.

Sobre a severidade destas doenças, é importante sublinhar que “a maioria destas situações clínicas segue um curso ligeiro”, afirma a Comissão de Estudos da SPC. “É revelador o dado de, até agora, não constar, na literatura médica, qualquer relato de caso fatal diretamente consequente à miocardite/pericardite induzida pela vacinação anti-SARS-CoV-2 de mRNA”, acrescenta, lembrando que “a miocardite induzida pela doença COVID-19 em si é, além de mais frequente, em termos proporcionais, também mais severa” e pode evoluir “com maior probabilidade para formas graves de arritmia e insuficiência cardíaca”.

Os especialistas sublinham ainda que a relação entre risco-benefício da vacina contra a Covid-19 é bastante positiva e que alertam que este tipo de publicações não deve assustar ou demover as pessoas de se vacinarem. “O risco de miocardite/pericardite não deve ser usado como argumento para abrandar os programas de vacinação populacional anti-SARS-CoV-2, particularmente no que refere aos esquemas – mais estudados – de duas tomas em indivíduos com mais de 12 anos.”

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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