"Espantoso! Assim que iniciaram contagem de mortes por Covid-19, a gripe e a pneumonia passaram a zero! Pense. Basta de insensatez e pânico. A falsa pandemia está destruíndo a economia e acabando com a nossa liberdade", destaca-se na mensagem em causa, culminando num apelo: "Acorda!"

Confirma-se que "assim que iniciaram a contagem de mortes por Covid-19, a gripe e a pneumonia passaram a zero"?

Sabendo que, em Portugal, o primeiro caso positivo de Covid-19 foi confirmado a 2 de março e a primeira morte 14 dias depois, o Polígrafo analisou os dados referentes ao surto de gripe na época 2019/2020, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA).

De acordo com os boletins de vigilância epidemiológica da gripe, publicados semanalmente entre outubro e maio, a última semana em que foram registados casos de surto gripal foi entre 9 e 15 de março. Esta situação não está relacionada com o aparecimento da Covid-19, uma vez que desde a semana de 17 a 23 de fevereiro que o INSA vinha a considerar sucessivamente que a atividade gripal era não epidémica. Na época anterior, 2018/2019, a atividade gripal não epidémica foi estabelecida a partir da semana de 11 a 17 de março, tendo os últimos casos de gripe sido registados entre 8 e 14 de abril.

Os casos identificados como gripe na época de 2019/2020 mostram uma pequena diminuição em relação ao período homólogo. Durante o período analisado pelo INSA, a rede portuguesa de laboratórios para o diagnóstico da gripe notificou 21.909 casos de síndrome gripal, dos quais 4.446 são positivos. No ano anterior tinham sido notificados 18.086, com 5.022 casos positivos para o vírus da gripe.

Gráfico comparativo dos casos de gripe nas épocas de 2018/2019 e 2019/2020.

"A atividade gripal da época 2019/2020 foi mais baixa do que a anterior”, explica Cátia Caneira, representante da Comissão de Infeciologia Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, em declarações ao Polígrafo. A razão para esta diminuição prende-se com o tipo de vacinação contra a gripe adoptado em Portugal. "Acredita-se que tenha sido pelo facto de no ano passado, pela primeira vez, a vacina administrada ter sido tetravalente. E, portanto, ter uma abrangência maior relativamente aos vários vírus da gripe que circulam em Portugal”, justifica.

O boletim de vigilância epidemiológica refere ainda que foram reportados 121 casos de gripe com internamento em unidades de cuidados intensivos, quando em 2018/2019 tinham sido registados 194 casos.

Os relatórios do INSA indicam a tipologia genética de cada vírus de carácter gripal que foi identificado. "Desde o início da época foram identificados mais casos por vírus do tipo A (64%) do que por vírus do tipo B (36%)", especifica-se no documento. Sobre a Covid-19, os epidemiologistas informam que "foi observado um excesso de mortalidade por todas as causas com tendência crescente na região europeia", justificando esse fenómeno "com a epidemia de Covid-19".

Uma nova época gripal a começar

A época considerada de maior prevalência da gripe ocorre entre outubro e maio e já existem dados referentes a este ano. Segundo o relatório do INSA, até à semana de 12 a 18 de outubro foram registados diagnosticados 372 casos de infeção respiratória nos laboratórios da Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico da Gripe.

Gráfico comparativo dos casos de gripe nas épocas de 2019/2020 e 2020/2021.

Cátia Caneiras explica que a curva epidemiológica da gripe referente à época de 2020/2021 poderá ser mais baixa do que a anterior, por dois motivos: primeiro porque voltou a ser administrada a vacina tetravalente; e segundo porque as medidas de prevenção e controlo de infeção adoptadas para prevenir o contágio de Covid-19 - nomeadamente a lavagem das mãos, a etiqueta respiratória e o uso de máscara - poderão também reduzir a transmissão da gripe.

"Não tem nada a ver com a circulação do vírus SARS-CoV-2, terá a ver com o facto de haver uma maior sensibilização este ano para medidas de prevenção e controlo de infeção que são transversais a qualquer tipo de microrganismo - seja infeção viral, seja infeção bacteriana", esclarece a investigadora.

A metodologia utilizada pela INSA para a elaboração do Boletim de Vigilância Epidemiológica do vírus da gripe tem por base um sistema de códigos. As consultas referentes à Covid-19 em cuidados primários são codificadas, para efeitos estatísticos, de forma diferente das consultas de pacientes com sintomas de gripe. Este mecanismo permite ao INSA monitorizar a atividade de Covid-19, mas também previne o "potencial impacto da utilização destes códigos na codificação de casos de síndrome gripal".

Em conclusão, a pandemia existe e a Covid-19 é uma doença que já causou a morte a mais de 2 mil pessoas em Portugal. Em 2019/2020, a curva epidemiológica foi mais baixa do que no ano anterior, mas este fenómeno está relacionado com a tipologia de vacina aplicada e não com a Covid-19. Ainda antes de ter sido registado o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus em Portugal, já este fenómeno era visível nos gráficos do INSA. A publicação em causa está a reproduzir falsidadesdesinformação.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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