"Agora sim, a mensagem do Dr. Rodger Hodckinson com legendas", destaca-se numa publicação no Facebook, datada de 1o de agosto. O vídeo partilhado no post acumula mais de 4.800 visualizações.

Esta não é a primeira vez que o Polígrafo verifica afirmações de Hodkinson, em dezembro de 2020 já circulavam nas redes sociais vídeos protagonizados pelo alegado patologista canadiano.

Numa das suas intervenções, o especialista chegou a afirmar que era antigo presidente do Royal College of Physicians e Surgeons do Canadá. No entanto, esta informação foi desmentida pelo próprio organismo. Em declarações à Associated Press (AP), a instituição explicou que Hodkinson foi certificado como médico patologista em 1976, "mas não é, nem nunca ocupou o cargo de presidente".

No vídeo em análise, apresenta-se como "um patologista amante da liberdade" e garante que tem um conjunto de mensagens importantes a transmitir, por conta de um "espetáculo de horror sem precedentes, o pior na história da medicina", referindo-se à pandemia de Covid-19. Seguem-se algumas de afirmações proferidas pelo médico e a respetiva análise.

A pandemia de Covid-19 é apenas "uma má época de gripe sazonal"

"Não acreditem em nada do que vos é dito. Tudo isto é um conjunto de mentiras, do princípio ao fim, pura propaganda. Isto [pandemia] não é nada mais do que uma má época de gripe sazonal com um ligeiro aumento de risco para pessoas idosas com comorbilidades", garante Hodkinson no início do vídeo.

A comparação entre a infeção por Covid-19 e a gripe tem sido frequente desde o início da pandemia, uma vez que os sintomas das duas doenças são muito semelhantes. Em ambos os casos, o paciente pode ter febre, tosse, dor de cabeça, dores musculares, fraqueza generalizada e dificuldades respiratórias.

Em março de 2020, quando começaram a ser detetados os primeiros casos de infeção por Covid-19, a OMS explicou de imediato que a gravidade do novo coronavírus estava, em primeiro lugar, relacionada com a novidade da doença. "Enquanto muitas pessoas globalmente construíram imunidade para as variantes de gripe sazonal, o novo coronavírus é um fenómeno recente a que ninguém tem imunidade. Isso significa que mais pessoas são suscetíveis à infeção, e algumas vão sofrer de uma doença mais severa".

Mais tarde, em dezembro de 2020, um estudo publicado na revista científica The Lancet Respiratory Medicine, baseado em dados nacionais franceses de 89.530 pacientes hospitalizados com Covid-19 nos meses de março e abril de 2o20 e de 45.819 pacientes hospitalizados com gripe sazonal entre dezembro de 2018 e 28 de fevereiro de 2019, mostra que foi maior a percentagem de pacientes com covid-19 a precisaram de cuidados intensivos(16,3%) do que no caso da influenza (10,8%).

O mesmo estudo revela que a taxa de mortalidade entre pacientes com Covid-19 hospitalizados foi três vezes superior (16,9%) à dos internados com gripe sazonal (5,8%). Já em relação à permanência média em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) no caso da covid-19 foi igual a 15 dias, os pacientes com gripe permaneceram cerca de oito dias hospitalizados. Ou seja, os internados com Covid-19 permaneceram nas UCI, em média, quase o dobro do tempo dos pacientes internados com gripe.

"O teste PCR cria mais de 95% falsos positivos"

"A minha segunda mensagem é que isto não é mais do que uma pandemia de medo, medo que foi intencionalmente induzindo por dois fatores principais. O notório teste de PCR e o vicioso silenciamento de qualquer contra narrativa. O teste PCR cria mais de 95% falsos positivos em pessoas completamente saudáveis", defende o patologista canadiano no vídeo em análise.

O Polígrafo já desmentiu várias vezes afirmações relacionadas com a margem de erro dos testes PCR (pode ler aquiaqui).

Os testes de biologia molecular (RT-PCR) que detetam o RNA do vírus são realizados com amostras do trato respiratório superior e/ou inferior. Como se explica na página do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), "desde o início da dispersão do SARS-CoV-2 que a disponibilização à comunidade científica de sequências genómicas completas deste vírus, obtidas a partir de amostras biológicas provenientes de doentes de origem chinesa, permitiu, quase de imediato, o desenvolvimento, por investigadores alemães, de um teste de diagnóstico molecular para a sua deteção laboratorial".

Segundo a mesma fonte, os processos utilizados neste exame permitem reconhecer os "genes que codificam as proteínas N, E, S e a polimerase viral". Estas proteínas e a polimerase viral existem em todos os coronavírus, mas os genes apresentam configurações diferentes para o vírus que provoca a Covid-19. 

Em declarações ao Polígrafo, em janeiro de 2021, Celso Cunha, virologista do IHMT,  afirmou que, embora existam muitos testes PCR, os que são utilizados para encontrar "o genoma do SARS-CoV-2 foram desenhados para o detetar e são absolutamente específicos para este vírus em concreto". Ou seja, os testes pesquisam o material genético do novo coronavírus na amostra colhida pela zaragatoa e nada mais. Na prática, estes testes "não são capazes de detetar os outros coronavírus sazonais, que causam vulgares constipações, nas condições experimentais que são utilizadas, muito menos qualquer outro vírus que pertença a uma família diferente dos coronavírus", assegurou o especialista.

Na prática, estes testes "não são capazes de detetar os outros coronavírus sazonais, que causam vulgares constipações, nas condições experimentais que são utilizadas, muito menos qualquer outro vírus que pertença a uma família diferente dos coronavírus", assegurou o especialista.

Na verdade, a taxa de sensibilidade dos testes é muito elevada, mesmo que seja impossível garantir sucesso nos resultados a 100%. Defeitos nos testes, contaminação ou má recolha de amostragens podem alterar os resultados do diagnósticos. Mas nenhum destes elementos está relacionado com a margem de erro original do teste que tem taxas de sensibilidade e especificidade analíticas superiores a 95%. Uma revisão sistemática da fiabilidade dos testes de diagnóstico da Covid-19, publicada em janeiro de 2021, aponta para uma percentagem de infeções por Covid-19 corretamente diagnosticadas igual a 97,2%, indicando assim uma margem de erro de apenas 2.8%.

Portanto, é completamente falso que esteja provado que os testes PCR possam criar 95% de resultados falsos positivos, pelo contrário a taxa de fiabilidade do teste é superior a esta percentagem.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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