Desde que, em meados de agosto, o presidente russo Vladimir Putin anunciou a aprovação de uma vacina contra a Covid-19, muitas questões se levantaram sobre a eficácia e a segurança deste fármaco. Quer a comunidade científica, quer a Organização Mundial da Saúde (OMS), quer o próprio Governo português manifestaram reservas sobre a consistência da vacina numa fase tão prematura.

Já em setembro foram publicadas várias notícias relatando que a Sputnik V - nome dado à vacina - demonstrou obter resultados positivos, nomeadamente ao nível da resposta imunológica e da segurança. A equipa de investigadores liderada por Denis Y. Logunov publicou um artigo na revista científica "The Lancet" em que descreve os dois estudos referentes às fases um e dois - realizadas em simultâneo - dos ensaios clínicos da vacina. Nas conclusões, os autores garantem que os resultados “mostram que a vacina é segura, bem tolerada e induz uma forte resposta imunológica em 100% dos participantes saudáveis”.

É importante perceber a que tipo de resultados se referem os autores quando escrevem que “a vacina é segura” e que “e induz uma forte resposta imunológica”. Estão a referir-se a uma fase específica dos ensaios clínicos (a fase um e dois) em que o fármaco é aplicado num número limitado de pessoas. A Sputnik V foi testada num total de 76 voluntários.

“O que o paper da 'The Lancet' indica é que, em fase um e dois, houve uma resposta imunológica”, explica Pedro Simas, virologista no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM) e professor de virologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em declarações ao Polígrafo. “Agora tem de se passar à fase três. Enquanto essa fase não for bem sucedida há um ponto de interrogação sobre esta vacina”.

O “ponto de interrogação” a que Simas se refere foi materalizado numa carta aberta enviada à "The Lancet" por um grupo de cientistas que questiona os dados “altamente improváveis” reportados pela equipa de Logunov. A revista britânica já respondeu à missiva sublinhando que “incitou aos autores do estudo sobre a vacina russa a responderem às questões levantadas” e assegurando que irá “seguir a situação de perto”.

Por sua vez, Logunov, citado pela agência de notícias oficial russa RIA Novosti, refutou as acusações e garantiu que “todos os dados recolhidos durante as investigações científicas” foram disponibilizados.

O processo para o desenvolvimento de uma vacina inclui várias fases: começa com uma fase pré-clínica, em que o fármaco é testado em laboratório, e depois passa pelas fases um, dois e três dos ensaios clínicos em humanos, em que é testada em grupos sucessivamente maiores de voluntários.

“A fase 3 demonstra que a vacina, em princípio, é segura e que foi testada em milhares de pessoas. Depois, quando é administrada e aprovada, há uma quarta fase de ensaios clínicos em que milhões de pessoas são vacinadas e só aquelas situações raríssimas - que só se vêem quando milhões de pessoas são vacinadas - vêm à luz”, conclui Simas.

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