"Foi administrador da Privado Holding, dona do BPP, onde atingiu o cargo de presidente executivo, no ano de 2009. Depois da resolução do BPP, o maior ativo da Privado Holding, mudou-se para a área da televisão, para o cargo de diretor-geral da TVI, de 2010 a 2011. Ainda não ouvi a comunicação social fazer conjeturas ou insinuações… Isso é só para alguns. Imaginemos que era André Ventura que tinha sido administrador e presidente executivo do BPP… O IL é o novo BE a ser carregado às costas pela comunicação social", lê-se num dos múltiplos posts detectados pelo Polígrafo nos últimos dias com mensagens praticamente similares, mostrando sempre a imagem de João Cotrim de Figueiredo, atual deputado e líder do partido Iniciativa Liberal.

Noutros exemplos de posts aparece mesmo emparelhado com a imagem de João Rendeiro, fundador e antigo presidente executivo do BPP, que recentemente fugiu à justiça, depois de ter sido condenado a uma pena de três anos e seis meses de prisão efetiva por crimes de burla qualificada.

Sim, é verdade que Cotrim de Figueiredo exerceu a presidência executiva da Privado Holding em 2009, mas há todo um contexto e factos adicionais que alteram substancialmente a percepção sobre o que realmente aconteceu.

Desde logo a constatação de que os problemas de risco de crédito e solidez financeira no BPP terem começado a tornar-se evidentes em novembro de 2008, levando mesmo João Rendeiro a renunciar ao cargo de presidente do Conselho de Administração do BPP, durante uma reunião de acionistas.

No dia 1 de dezembro de 2008, o Banco de Portugal decidiu intervir no BPP, nomeando uma administração provisória, liderada por Fernando Adão da Fonseca, para acompanhar um plano de salvamento da instituição que incluiu um empréstimo negociado junto de seis outros bancos portugueses, no valor de 450 milhões de euros, com garantia do Estado.

Nesse mesmo dia, o então ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, justificou tal intervenção (em vez de uma nacionalização) considerando que se tratava de um problema de menor dimensão do que o BPN, mas "por mais pequeno que seja (...) não vale a pena correr o risco de perturbação do sistema financeiro e daí a necessidade dessa intervenção".

Posteriormente, a 19 de dezembro de 2008, o Conselho de Administração da Privado Holding, sociedade que detinha a totalidade do capital social do BPP, ainda liderada à data por João Rendeiro, renunciou aos cargos no decorrer de uma Assembleia-Geral de Acionistas.

Ora, Cotrim de Figueiredo só entrou na Privado Holding em janeiro de 2009, como presidente executivo do Conselho de Administração, não chegando sequer a coincidir com João Rendeiro. E demitiu-se logo em maio de 2009.

Contactado pelo Polígrafo através do gabinete parlamentar do Iniciativa Liberal, Cotrim de Figueiredo esclarece que "nunca esteve no BPP, nunca geriu o BPP, nunca trabalhou com João Rendeiro e nunca defendeu os seus interesses, muito pelo contrário. Assumiu funções de administrador executivo na Privado Holding, acionista do BPP, em janeiro de 2009, após a intervenção do Banco de Portugal no BPP e da saída forçada de João Rendeiro de ambas as instituições. Nos termos da intervenção do Banco de Portugal no BPP, a Privado Holding deixou de ter, e de poder ter, qualquer relação com o BPP".

"Enquanto administrador da Privado Holding, o mandato que assumiu era o de tentar evitar a destruição de valor dos ativos da Privado Holding. A nova administração anunciou, logo em janeiro de 2009, a realização de uma auditoria para apurar as responsabilidades da anterior administração. Do ponto de vista operacional, a prioridade consistia na elaboração de uma proposta de viabilização do ativo BPP baseada num novo modelo de negócio virado para o apoio e reestruturação de PME com potencial, mas com lacunas ao nível da gestão. A solução encontrada envolvia a entrada de novos acionistas no capital e a total diluição da posição dos anteriores acionistas, conjunto em que se incluía João Rendeiro", descreve.

"Por outras palavras, na solução desenvolvida pela equipa liderada por Cotrim de Figueiredo, João Rendeiro perderia a quase totalidade da sua posição. Quatro meses depois, em maio de 2009, a referida proposta de viabilização foi submetida à Assembleia-Geral de Acionistas da Privado Holding, onde foi rejeitada, exatamente por implicar perdas muito avultados para esses mesmos acionistas. Considerando não ter interesse nem condições para continuar ligado ao projeto, Cotrim Figueiredo apresentou a sua demissão", conclui.

A falta de contexto distorce de tal forma a realidade do que aconteceu que optamos neste caso pela classificação de "descontextualizado", ainda que o exercício do cargo - per se - em 2009, durante cerca de quatro meses (algo omitido na generalidade dos posts), seja factualmente verdade. Acresce que, no primeiro post que destacamos, também se confunde a Privado Holding com o BPP e sugere-se (de forma sibilina, nos dois exemplos de posts) que a instituição só foi intervencionada depois da passagem de Cotrim de Figueiredo pelo referido cargo.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falta de contexto: conteúdos que podem ser enganadores sem contexto adicional.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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Descontextualizado
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