"Há de facto muitas diferenças entre o Iniciativa Liberal e o Bloco de Esquerda. Não é só no agravamento fiscal que já discutimos, é nesta vontade de dar a Portugal uma muito maior oportunidade de crescimento e, às gerações que estão a entrar na vida ativa, possibilidades de fazer a sua vida em Portugal. E isso, lamento, o Bloco de Esquerda não consegue fazer", criticou João Cotrim de Figueiredo, no frente-a-frente com Catarina Martins, quinta-feira, dia 6 de janeiro.

Nesse âmbito, concretizou: "Até nos impostos que propõe, contei cerca de 11 ou 12 impostos que no programa do Bloco de Esquerda são criados ou aumentados. E há três deles que têm que ver com novas atividades que a juventude abraçou rapidamente: a taxa Netflix e a regulação das plataformas tipo TVDE ou de entregas".

O líder do Iniciativa Liberal tem razão?

Analisámos o programa eleitoral 2022-2026 do Bloco de Esquerda (pode consultar aqui) e identificámos, de facto, várias propostas relacionadas com a criação ou aumento de impostos, em várias áreas.

O partido liderado por Catarina Martins propõe, no âmbito da justiça e progressividade fiscal, a criação de um imposto sobre doações e heranças, com valor superior a 1 milhão de euros, com uma taxa de 25% para heranças acima de dois milhões de euros e de 16% entre um e dois milhões de euros. É também apontada a criação de um imposto de solidariedade sobre as grandes fortunas, que incide sobre o património global dos sujeitos passivos cuja fortuna seja superior a 2000 salários mínimos nacionais. Na mesma área, propõe-se ainda a "criação de um imposto específico sobre o consumo de bens e serviços de luxo, como são exemplo algumas jóias, automóveis ou barcos, ou utilização de campos de golfe".

Na área do ambiente, o Bloco de Esquerda defende a criação de uma taxa sobre a produção florestal de crescimento rápido e a indústria da  celulose, com aplicação de receitas no financiamento de serviços de ecossistema florestais com espécies autóctones.

Já no setor empresarial, propõe a criação de um novo escalão da derrama estadual para empresas com lucros entre 20 milhões e 35 milhões com a taxa de 7%. Segundo o BE, este novo escalão "permite um pequeno aumento do IRC das empresas com maiores lucros, que pode ser canalizado para o financiamento dos serviços públicos e da segurança social". Outra medida consiste na "diversificação das fontes de financiamento da Segurança Social", através de uma  contribuição de 0,75% sobre o Valor Acrescentado Líquido das grandes empresas, excluindo todas as PME, "garantindo mais justiça no esforço contributivo entre empresas com muitos trabalhadores e empresas com poucos trabalhadores mas grandes lucros".

  • Cotrim de Figueiredo diz que o PAN tinha "38 vezes a palavra proibir" no programa de 2019. Confirma-se?

    Ambos reconhecem o fenómeno das alterações climáticas como um grave problema, mas divergem nos caminhos a seguir e possíveis soluções. Para Inês de Sousa Real (PAN), enfrentamos uma "emergência" que implica medidas drásticas. Do lado oposto, João Cotrim de Figueiredo (IL) entende que o "empobrecimento" não resolve o problema e critica a "visão proibicionista" de partidos como o PAN que, no programa eleitoral de 2019, "tinha 38 vezes a palavra proibir". Essa conta está bem feita?

Além disso, o Bloco de Esquerda quer estabelecer a sujeição das barragens ao IMI, quando o seu usufruto e titularidade pertençam a uma entidade privada, assim como a criação de taxas desagravadas de imposto sobre os lucros de fundações e associações sem fins lucrativos a partir de 15 mil euros de matéria coletável.

No programa dos bloquistas destaca-se ainda a proposta para o enquadramento fiscal das operações com criptomoedas, nomeadamente ao nível das mais-valias em sede de IRS e a criação de um imposto sobre os gigantes digitais, conhecido como "Imposto Google", "que contribua para a sustentabilidade da comunicação social nacional e local, tributando os seus rendimentos obtidos em território nacional".

Assinala-se também a criação de um imposto sobre a prestação de determinados serviços digitais, "onde a participação dos utilizadores e das utilizadoras cria valor para as empresas prestadoras do serviço". Um imposto aplicado a serviços de publicidade online, de intermediação online e ainda de transmissão de dados.

Pelo que se conclui que a afirmação de Cotrim de Figueiredo é verdadeira, há pelo menos 11 propostas de criação ou aumento de impostos no programa dos bloquistas.

No entanto, a "taxa Netflix", proposta apresentada pelo Bloco de Esquerda em 2020, para que as plataformas de streaming passassem a contribuir para o financiamento do cinema e audiovisual, não está inscrita no programa eleitoral. Além disso, as medidas relativas a plataformas de entregas e de TVDE inscritas no programa são relativas à regulação dos direitos laborais dos trabalhadores, não sendo feita referência direta à criação ou aumento de impostos sobre as mesmas.

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