"O momento em que [António] Costa garantiu que em Portugal os jovens recém-qualificados não ganhavam 2.700 euros por mês. O país mudou, entretanto. Deve ter sido a inflação." A memória é de Carlos Guimarães Pinto, deputado do Iniciativa Liberal, e foi partilhada esta terça-feira, dia 8 de novembro, no Twitter.

Em causa está a nomeação de Tiago Cunha para o cargo de adjunto do gabinete da ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, apesar de não ter qualquer experiência profissional no currículo. Licenciado este ano em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP), no novo cargo está a ganhar um salário de 3.732,76 euros por mês (rendimento bruto), um valor que é tabelado e transversal aos restantes adjuntos e técnicos especialistas de gabinetes ministeriais.

Confirma-se que o primeiro-ministro tinha dito, em 2021, que "os jovens recém-qualificados não ganhavam 2.700 euros por mês"?

Numa entrevista concedida no rescaldo de um congresso do PS, num momento em que o país estava focado na evolução da percentagem de vacinados contra a Covid-19 e a cerca de três semanas das eleições autárquicas de 26 de setembro, António Costa falou com Miguel Sousa Tavares sobre as condições de vida dos jovens em Portugal. E foi este o tema mais polémico da conversa, sobretudo quando o jornalista fez contas de cabeça e pediu a Costa que puxasse pela imaginação:

"Imagine um jovem que vai para o mercado de trabalho, altamente qualificado, e pagam-lhe aquilo que, para nós, é um belo salário para quem começa: 2.700 euros por mês."

Costa cortou a pergunta, dizendo de imediato: "Não pagam, infelizmente. Isso seria..."

Sousa Tavares não deixou o primeiro-ministro fechar e interrompeu: "Não pagam, mas vamos imaginar que pagam... O seu ministro das Finanças fica-lhe com 45% disto, o que dá, de facto, 1.400 euros limpos, dos quais ele vai pagar, por um T1 em Lisboa, 1.000 euros. Restam-lhe três hipóteses: ou vive com 400 euros, que é impossível; ou vive em casa dos pais; ou vai-se embora".

"Dessa equação toda, há um dado [de] base que, infelizmente, não corresponde à realidade", argumentou Costa. "É que esse jovem altamente qualificado não tem como primeira oferta de emprego esse salário nem nada que se lhe pareça", sublinhou.

"Se tiver, cai-lhe o Fisco em cima e corta-lhe as pernas", sublinhou o jornalista.

"Não, não vai. Nós adotámos no ano passado [2020] e vamos melhorar neste ano [2021] uma medida que designámos de 'IRS Jovem'. O que é o 'IRS Jovem'? É precisamente um apoio para que os jovens tenham um maior rendimento disponível no arranque da vida ativa", contestou o primeiro-ministro.

  • Médicos com anos de experiência no SNS ganham menos do que recém-licenciado contratado por Mariana Vieira da Silva?

    A contratação de um jovem de 21 anos, sem qualquer experiência profissional, para o cargo de adjunto do gabinete da ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, está a dar que falar nas redes sociais. Não apenas por ser filiado na Juventude Socialista (JS), mas sobretudo pelo salário em causa: 3.732,76 euros por mês. Em reação no Twitter há quem compare com a remuneração de um "médico especialista do SNS" que não vai além de 2.746,24 euros. Os valores indicados têm fundamento?

Confirma-se assim que, em 2021, Costa disse que os empregadores não pagam 2.700 euros brutos aos jovens altamente qualificados em ínicio de carreira profissional. Agora é Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência, quem está a remunerar um adjunto de 21 anos, sem experiência, com um salário bastante superior ao mencionado.

Contas feitas, porém, Costa até tinha alguma razão: através de um inquérito a 2,2 milhões de jovens entre os 15 e os 34 anos, residentes em Portugal, o perfil dos jovens portugueses foi traçado, em 2021, num estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), "Os Jovens em Portugal, Hoje"; de acordo com o documento, no que respeita ao salário líquido mensal para jovens que trabalham por conta de outrem, 86% inserem-se nos escalões de valores até 1.158 euros. Só no escalão entre 601 e 767 euros registou-se uma percentagem de 30%.

Quando olhamos para rendimentos mais elevados, porém, verificamos que apenas 5% dos jovens portugueses auferem entre 1.159 euros a 1.375 euros líquidos por mês. Mais curta ainda é a fatia de jovens que recebem entre 1.376 euros a 1.642 euros/mês (somente 4%). Quanto aos jovens portugueses que recebem mais de 1.642 euros por mês, diz o estudo da FFMS que são apenas 3% da fatia total, uma percentagem que ultrapassa apenas o número de jovens cujo salário varia de mês para mês (2%).

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