"Estamos a ter, como é sabido, desde meados de agosto, uma subida constante das infeções, em linha com a generalidade dos países europeus", declarou ontem o primeiro-ministro António Costa, segundo noticiou a TSF, ressalvando que "são infeções que hoje, felizmente, estão a ter menor gravidade do que no início da crise".

Na mesma ocasião, o primeiro-ministro também avisou que a menor gravidade das infeções "não permite a ninguém aliviar os cuidados".

Verifica-se "uma subida constante das infeções" de Covid-19, mas essas novas infeções "estão a ter menor gravidade do que no início da crise", tal como afirmou Costa?

Analisando os dados estatísticos oficiais da Direção-Geral da Saúde (DGS), de facto, confirma-se que o número de novos casos diários confirmados de infeção por Covid-19 em Portugal aumentou substancialmente no início de setembro (quase sempre acima de 500 novos casos desde o dia 9 de setembro), aproximando-se do anterior pico registado entre o final de março e o final de abril (quase sempre acima de 500 novos casos entre 25 de março e 25 de abril).

Esta tendência de "subida constante das infeções" teve início no dia 26 de agosto, pelo que essa parte da declaração de Costa tem sustentação factual, baseando-se nos dados estatísticos oficiais da DGS. Os números apontam para uma "segunda vaga" de infeções em desenvolvimento, no limiar dos 1.000 novos casos diários que só foi ultrapassado no dias 31 de março e 10 de abril.

Quanto à alegada "menor gravidade" das infeções, o principal indicador a ter em conta será a evolução dos internamentos.

Desde o início da pandemia, o pico de internamentos de infetados com Covid-19 foi atingido no dia 16 de abril (ou mais corretamente no dia 15 de abril, tendo os dados referentes a esse dia sido divulgados no relatório da DGS de 16 de abril), com um total de 1.302 pessoas internadas, entre as quais 229 em unidades de cuidados intensivos.

Esse pico de internamentos verificou-se na reta final da "primeira vaga" de infeções, ou seja, durante o pico de novos casos registado entre 25 de março e 25 de abril, como já referimos anteriormente.

Numa altura em que o número de novos casos diários está praticamente ao mesmo nível de abril, segundo o relatório da DGS de 5 de outubro (com dados referentes a 4 de outubro) contabilizam-se 701 pessoas internadas, entre as quais 106 em unidades de cuidados intensivos.

Na medida em que há menos internamentos (quase metade) numa altura em que o número de novos casos está praticamente ao mesmo nível, pode assim concluir-se que as novas infeções "estão a ter menor gravidade do que no início da crise", tal como afirmou Costa.

Contudo, importa ter em atenção que o pico de internamentos de 16 de abril foi registado numa altura em que o número de novos casos já estava a diminuir. Na presente situação epidemiológica, a tendência é de aumento do número de novos casos, não se sabendo em que ponto estamos da aparente "segunda vaga": se mais ou menos próximos de novos registos máximos, ou se esses números de março/abril vão ser ou não superados.

Há um conjunto de variáveis e incertezas que impossibilitam uma conclusão definitiva. No entanto, de acordo com os dados estatísticos disponíveis neste momento, a alegação do primeiro-ministro tem sustentação factual, aparentemente confirmada pela evolução do número de internamentos. E o número de mortes diárias também aponta no mesmo sentido, ainda distante do nível máximo atingido em março/abril.

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Avaliação do Polígrafo:

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