"Da série: 'Espelho meu, espelho meu, diz-me, existe no reino alguém mais sem vergonha, hipócrita, cínico, mentiroso e aldrabão, do que eu?'", lê-se numa das publicações divulgadas na passada segunda-feira, 20, nas redes sociais, um dia depois das declarações proferidas por António Costa durante uma ação de campanha para as eleições autárquicas, em Matosinhos.

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A acompanhar a descrição, dois recortes do "Jornal de Notícias", um de 7 de maio de 2021 e outro desta segunda-feira, no rescaldo das intervenções do primeiro-ministro em Matosinhos. As divergências nas declarações suscitaram múltiplas publicações e reações nas redes sociais, havendo mesmo quem escrevesse o seguinte: "Parece que desta vez o Sr. Costa foi longe demais com as suas ameaças. Mesmo com Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) e 'Bazuca' acabou-se o 'Estado de graça' do primeiro-ministro."

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Contudo, foi enquanto secretário-geral do Partido Socialista (PS) que António Costa ameaçou a Galp com uma "lição exemplar", depois do encerramento da refinaria de Matosinhos, dizendo mesmo que "era difícil imaginar tanto disparate, tanta asneira, tanta insensibilidade" como aquela demonstrada pela empresa de energia. "Não tenho nenhum medo em dizer: o processo da Galp em Matosinhos é um exemplo de tudo o que não deve ser feito por uma empresa que seja responsável", afirmou.

"Não tenho nenhum medo em dizer: o processo da Galp em Matosinhos é um exemplo de tudo o que não deve ser feito por uma empresa que seja responsável", afirmou.

Estas foram as declarações de Costa no último domingo, mas segundo as publicações supracitadas, em maio deste ano o primeiro-ministro elogiava prontamente o fecho da refinaria.

Será mesmo assim?

É verdade que, poucos dias depois de ter sido desligada a última unidade de produção da refinaria de Matosinhos, a 30 de abril, para concentrar estas operações em Sines, António Costa classificou este encerramento como um "enorme ganho", mas o primeiro-ministro falava de um ganho para a redução das emissões e não dos trabalhadores.

Aliás, logo a seguir, António Costa fez questão de mencionar o problema do aumento da automação como sendo um "risco": "Portugal orgulha-se de ser indicado pela Comissão Europeia como o país que está em melhores condições para alcançar os objetivos de 55% ao nível da redução de emissões, mas isso tem custos. Neste concelho de Matosinhos, acaba de encerrar uma refinaria. Foi um enorme ganho para a redução das emissões, mas, também, um enorme problema pela necessidade de garantir emprego e todos aqueles que aqui trabalhavam."

"O pilar social da formação, do emprego e do combate à pobreza é absolutamente essencial", salientou Costa, dizendo que os trabalhadores "têm de possuir a oportunidade de transitarem para novos empregos".

"Neste concelho de Matosinhos, acaba de encerrar uma refinaria. Foi um enorme ganho para a redução das emissões, mas, também, um enorme problema pela necessidade de garantir emprego e todos aqueles que aqui trabalhavam".

Apesar da assertividade nas declarações, o que é certo é que o PS chumbou, a 30 de junho, um projeto dos comunistas para alterar as políticas dos despedimentos coletivos. No entender de Jerónimo de Sousa, em campanha em Odemira, o primeiro-ministro falou "como se os grandes monopolistas tivessem coração em vez de um cifrão", dizendo: "Em julho passado, o PS chumbou o nosso projeto para travar os despedimentos coletivos em massa e nunca acompanhou as medidas que propusemos para impedir o encerramento da refinaria de Matosinhos."

Em suma, é verdade que António Costa elogiou e criticou o encerramento da refinaria da Galp em Matosinhos, tudo no espaço de seis meses. Ainda assim, é necessário ter em conta que o secretário-geral do PS não se referia aos despedimentos aquando da congratulação, mas sim à substancial quebra de emissões poluentes: uma informação relevante que é omitida nas publicações em causa.

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