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Costa diz que com “conhecimento atempado” da estirpe britânica teria alterado medidas para o Natal. É verdade?

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"Se tivéssemos tido conhecimento atempado da existência da variante inglesa, seguramente o quadro das medidas que foram definidas para o Natal teria sido diferente e, seguramente, as restrições que entraram em vigor no início de janeiro teriam entrado em vigor provavelmente logo a 26 de dezembro", afirmou ontem o primeiro-ministro António Costa. Verificação de factos.

No programa “Circulatura do Quadrado” da TVI, ontem à noite, questionado sobre “que erros substanciais nas medidas ou nas datas e escolhas” que foram cometidos na gestão da pandemia de Covid-19, o primeiro-ministro António Costa respondeu que “olhando agora, eu diria o seguinte: se tivéssemos tido conhecimento atempado da existência da variante inglesa, seguramente o quadro das medidas que foram definidas para o Natal teria sido diferente e, seguramente, as restrições que entraram em vigor no início de janeiro teriam entrado em vigor provavelmente logo a 26 de dezembro“.

É verdade que na altura em que foram determinadas as medidas restritivas para o Natal ainda se desconhecia a existência da nova estirpe britânica do coronavírus?

No dia 5 de dezembro de 2020, o primeiro-ministro anunciou as restrições que seriam aplicadas no âmbito das tradicionais celebrações do Natal e do Ano Novo em Portugal, dois dias após a única reunião entre especialistas e decisores políticos no Infarmed que se realizou nesse mês.

Durante essa reunião, tal como confirma ao Polígrafo o epidemiologista Manuel Carmo Gomes que nela participou, a variante britânica do SARS-CoV-2 não foi um tema abordado. “Na altura, nem os próprios ingleses teriam disponibilizado informação sobre esta questão”, recorda.

Esta informação é confirmada por Carla Nunes, outra das participantes na reunião em causa. “Só na última reunião do Infarmed [ndr: no dia 12 de janeiro de 2021] é que foram apresentados dados estatísticos sobre a presença variante britânica em Portugal”, afirma ao Polígrafo a diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa.

A 14 de dezembro, na Câmara dos Comuns do Reino Unido (câmara baixa do Parlamento), o ministro da Saúde do Governo liderado por Boris Johnson revelou que as autoridades de Saúde tinham descoberto uma nova variante do coronavírus que se propaga mais rapidamente. “Identificámos uma nova variante do coronavírus que pode estar associada à disseminação mais rápida no sudeste da Inglaterra. A análise inicial sugere que essa variante está a propagar-se mais rapidamente do que as variantes existentes”, declarou então o ministro Matt Hancock.

Nesse mesmo dia, o Reino Unido notificou a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a descoberta (pode conferir no comunicado emitido posteriormente pela OMS). “No dia 14 de dezembro de 2020, as autoridades do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte informaram a OMS de que tinha sido identificada uma nova variante do SARS-CoV-2 por meio da sequência genética do vírus”, lê-se no documento da OMS, datado de 21 de dezembro, um dia depois de Boris Johnson ter anunciado a imposição de um novo confinamento no país devido à nova estirpe que disse ser até 70% mais transmissível.

Mas deveria o Governo português ter avançado com novas medidas logo após o anúncio do ministro da Saúde do Reino Unido? “Eu vejo isso com muita dificuldade”, considera Manuel Carmo Gomes. “Do ponto de vista político, a informação de que o perigo que a variante representava, combinada com o facto de se estar num planalto com tendência descendente, não era suficiente para tomar a decisão de fechar tudo muito restritivamente no Natal“. Ainda assim, ressalva: “Do ponto de vista epidemiológico, é sempre. Mas quando damos recomendações, compreendemos que quem decide tem que ponderar o impacto social de todas as medidas“.

Para o epidemiologista, a melhor opção teria sido um confinamento mais restritivo antes do período de celebrações do Natal e Ano Novo, de forma a poder controlar os números no final do mês de dezembro. No entanto, diz ter “a sensação de que, mesmo que fosse proibido o Natal, seria muito difícil evitar que uma percentagem muito significativa das famílias portuguesas não contornasse as medidas”. Na sua perspetiva, com os números registados na altura, um confinamento mais restritivo no Natal iria originar uma grande contestação da população.

Por seu lado, Carla Nunes salienta que, na altura do anúncio do Governo do Reino Unido, “ainda estava tudo muito incerto. Havia receio do impacto desta variante, e de outras, mas o impacto ainda não era conhecido. Foi um risco de todos nós”.

No dia 17 de dezembro, António Costa falou ao país para anunciar que a suavização das medidas restritivas se mantinha na celebração do Natal, mas que não se aplicaria ao Ano Novo. Nessa altura, as autoridades de Saúde portuguesas ainda não tinham dados sobre a presença desta variante em território nacional, como se pode comprovar no relatório da situação sobre a diversidade genética do coronavírus SARS-CoV-2 elaborado pelo INSA – Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. “Do total de vírus sequenciados pelo INSA e pelo IGC, não se encontrou qualquer vírus com a combinação de mutações apresentada pela variante atualmente a circular no Reino Unido ou pelas variantes associadas a surtos de SARS-CoV-2 em explorações de martas na Dinamarca”, lê-se no documento, publicado no dia 23 de dezembro. 

De resto, os dois especialistas questionados pelo Polígrafo concordam em que deveria ter-se agido mais cedo em janeiro de 2021. A primeira reunião no Infarmed foi realizada apenas no dia 12 de janeiro. “Mas, neste dia, perdeu-se uma oportunidade. Nós, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, fomos lá dizer que íamos em direção aos 14 mil [novos casos de infeção por dia] e já dificilmente os evitaríamos“, sublinha Manuel Carmo Gomes. O novo confinamento que se iniciou no dia 14 de janeiro “não teve o impacto que devia ter. Havia muitos sinais errados: as escolas abertas e todas as excepções permitidas”.

Quanto a Carla Nunes, revela que foi uma das especialistas que defendeu o fecho dos estabelecimentos de ensino logo no dia 12 de janeiro. “No principio de janeiro, já havia divisão em relação às escolas. Não pelo que se passa dentro das escolas, mas por ser o contexto que mexe mais em todos os outros. Porém, é mais caro para a sociedade. Os especialistas concordavam que esta devia ser a última medida a ser colocada em prática. Mas se uns achavam que ainda não era altura de ser aplicada, outros – como eu – achavam que já estava na altura“, sublinha. “Se tivesse entrado mais cedo, não sei se seria possível impedir o que estamos a viver”.

Em suma, na altura – dia 5 de dezembro – em que foram determinadas as medidas restritivas para o Natal ainda se desconhecia a existência da nova estirpe britânica. Mas essa descoberta foi anunciada logo no dia 14 de dezembro, pelo que ainda seria possível alterar as medidas aplicadas em Portugal.

Aliás, no dia 20 de dezembro, o Governo português anunciou o fecho das fronteiras aéreas a todos os viajantes não portugueses ou não residentes que chegassem em voos oriundos do Reino Unido, alinhado com vários outros países europeus, precisamente devido à nova estirpe britânica do coronavírus.

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Avaliação do Polígrafo:

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