Portugal saiu do Estado de Emergência e entrou em Estado de Calamidade. No dia 2 de maio à meia-noite, algumas das restrições, que estavam em vigor desde março foram levantadas e os portugueses entraram num processo de desconfinamento progressivo. Pequenas lojas começaram a abrir, assim como os cabeleireiros e centros de estética, entre outros serviços que nos últimos dois meses estiveram de portas fechadas. Também os ajuntamentos até dez pessoas voltaram a ser permitidos e o reencontro com a família tornou-se uma possibilidade. No entanto, as recomendações de proteção mantêm-se: o distanciamento social, o uso de máscara em lugares públicos e a higienização das mãos devem ser ainda uma constante no dia-a-dia.

Foi precisamente sobre os reencontros familiares que o sub-diretor da Direção-Geral da Saúde, Diogo Cruz, foi questionado no passado dia 5 de maio, durante a conferência de imprensa diária. Podemos organizar jantares com a família ou com amigos? “Nós podemos fazer um jantar de família, com as devidas precauções, com as devidas cautelas e o devido distanciamento social. Provavelmente não podemos fazer nos moldes em que o fazíamos antigamente, pelos menos durante mais um período para que continuemos a combater esta pandemia”, respondeu Diogo Cruz depois de sublinhar a importância de manter as medidas de distanciamento físico, de etiqueta respiratória e de lavagem das mãos.

A resposta do sub-diretor da DGS causou dúvidas entre os leitores do Polígrafo, principalmente sobre os riscos de entrar em casa dos familiares e amigos, partilhando com eles uma refeição onde o distanciamento social pode ser difícil de cumprir e em que as máscaras têm de ser retiradas para comer. Uma publicação começou a ser partilhada nas redes sociais onde se afirma que “do ponto de vista lógico e racional, é bastante óbvio que é impossível manter a distância social e sobretudo manter o uso de máscaras enquanto se convive, sobretudo à mesa, e pior do que isso, dentro de casa”.

Para entender os riscos que existiam num possível jantar de família, o Polígrafo questionou vários especialistas.

Celso Cunha, virologista e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, vê a socialização próxima inerente a estas reuniões como um risco. “Ir a casa de um familiar implica que as pessoas vão estar próximas umas das outras e se não usarem máscara vão correr riscos”, alerta. “Do meu ponto de vista, o mais aconselhável – uma vez que percebo que esteja a ser duro para as famílias – é realizar encontros e passeios ao ar livre.”

“Uma vez que se está a desconfinar progressivamente e que se resolveu dar ‘autorização’ para que as famílias voltem a conviver com mais proximidade, eu aconselharia alguma prudência no comportamento dentro de casa porque há casas que são pequenas, há casas que são maiores, com salas pequenas ou grandes, onde podem estar nove ou dez pessoas lá dentro e isso é um risco”, explica o professor. “Haverá muita dificuldade em manter o distanciamento social dentro de uma casa com tanta gente”, sublinha ainda.

Celso Cunha, virologista e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, vê a socialização próxima inerente a estas reuniões como um risco. “Ir a casa de um familiar implica que as pessoas vão estar próximas umas das outras e se não usarem máscara vão correr riscos”, alerta. “Do meu ponto de vista, o mais aconselhável – uma vez que percebo que esteja a ser duro para as famílias – é realizar encontros e passeios ao ar livre.

Por outro lado, Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crises da Ordem dos Médicos, considera que a decisão de autorizar ou restringir o contacto entre familiares “entra na esfera pessoal das pessoas”. “Eu acho que o que deve motivar os comportamentos das pessoas não devem ser as disposições do Estado, mas as opções do indivíduo, o mais fundamentadas possível na base do conhecimento, da literacia e da capacitação.”

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créditos: Pixabay

O pneumologista alerta para os riscos de contágio que são aumentados quando os indivíduos estão mais próximos e sem medidas de proteção – nomeadamente à mesa e sem máscaras –, mas recusa que possa ser o Estado a tomar a decisão de proibir os encontros entre familiares. Para Froes existem duas ideias que devem ser tidas em conta para a decisão de realizar este tipo de eventos: primeiro nunca esquecer “que o risco é real e muitas vezes pode ser fatal” e, em segundo lugar, “que há pessoas assintomáticas” que podem ser contagiosas.

Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crises da Ordem dos Médicos, considera que a decisão de autorizar ou restringir o contacto entre familiares “entra na esfera pessoal das pessoas”. “Eu acho que o que deve motivar os comportamentos das pessoas não devem ser as disposições do Estado, mas as opções do indivíduo, o mais fundamentadas possível na base do conhecimento, da literacia e da capacitação.”

“Perante situações concretas e necessidades específicas, temos de avaliar as vantagens e desvantagens e – a levar para a frente esse encontro – fazer tudo o que seja possível para minimizar o risco de transmissão, tendo em consideração que há pessoas de risco muito elevado e que há pessoas assintomáticas”, esclarece.

É sabido que os locais fechados acarretam maiores riscos de contágio e fazer distanciamento social dentro de casa pode não ser uma tarefa fácil. É necessário que as famílias se adaptem a uma nova realidade que inclui medidas de higiene respiratória, máscaras, e um afastamento. “Em vez de ter dez pessoas da família, tenho cinco e tenho o dobro do espaço; devo colocar as pessoas que têm algumas vulnerabilidades e que têm problemas de comorbilidades em zonas perto das janelas; tentar fazer o arejamento da área durante o jantar; terem as máscaras”, diz Carlota Louro, professora de Epidemiologia na Nova Medical School da Universidade Nova de Lisboa, para um jantar em família. Celso Cunha acrescenta a necessidade de lavar as mãos assim que entra e sai da casa e Filipe Froes recorda que não se deve partilhar qualquer tipo de utensílio – seja talheres, copos ou pratos. Isto para além das manifestações de carinho que devem ser evitadas ao máximo.

“Em vez de ter dez pessoas da família, tenho cinco e tenho o dobro do espaço; devo colocar as pessoas que têm algumas vulnerabilidades e que têm problemas de comorbilidades em zonas perto das janelas; tentar fazer o arejamento da área durante o jantar; terem as máscaras”, diz Carlota Louro, professora de Epidemiologia na Nova Medical School da Universidade Nova de Lisboa

Os principais grupos de risco serão os idosos, que poderão desenvolver formas mais agressivas da Covid-19. No entanto, estes são também, muitas vezes, os elementos que mais necessitam de estar com a família. Excluir esse grupo etário dos encontros pode trazer consequências negativas ao nível psicológico, contribuindo para um aumento do isolamento social. “Essas pessoas, para não serem excluídas, têm de estar numa posição diferente, próxima de uma zona arejada, com as suas máscaras e devem conter-se um bocadinho em termos emocionais, que é uma coisa que nós temos alguma dificuldade em fazer”, aconselha Carlota Louro.

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A professora reconhece que existem riscos acrescidos de contágio, mas defende que a melhor forma de proceder a um desconfinamento progressivo é, precisamente, em família. “O treino em família é importante para o que vai ter de acontecer lá fora quando formos todos para os locais de trabalho, de comércio e para os parques públicos”, explica a professora. “É mais fácil, perante uma pessoa da família, dizer ‘afasta-te’ porque é o meu filho ou a minha mãe, ou ‘está a pôr-se em risco a si e a mim’. Fazer esse treino para a saúde no contexto familiar, perceber como é que é capaz de ter esse tipo de atitudes e depois transpô-las para a sociedade.”

Avaliação do Polígrafo: 

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