Circulam nas redes sociais muitas dúvidas sobre a utilização e higienização das máscaras protetoras contra o novo coronavírus. A maioria dos modelos sugeridos pelas autoridades de saúde são de utilização única, mas devido à escassez de material de proteção nos hospitais grupos de cientistas estudam a possibilidade de higienizar e esterilizar as máscaras.

Uma dessas opções surgiu numa publicação no Twitter. No texto – que se estende por vários tweets – é identificada uma forma de higienização das máscaras N95 (também conhecidas como respiradores)  que passa por utilizar um recipiente com água, uma rede e um micro-ondas caseiro. Leitores do Polígrafo questionaram a veracidade e a eficácia da técnica apresentada.

“Nós colocámos cerca de dez milhões vírus MS2 vivos em diferentes regiões da máscara N95. Ao colocar esta máscara no micro-ondas em cima de um recipiente de vidro largo (17 por 17cm) contendo 60ml de água durante três minutos, quase todos os vírus foram eliminados”, explica Tanush Jagdish, autor da publicação. “Devido à sua proteína capsídeo, a estrutura de RNA [Acido Ribonucleico] do vírus MS2 é mais difícil de desinfetar do que o SARS-CoV-2 (que tem uma membrana lipídica)”, pode ainda ler-se.

Esta informação foi retirada de um estudo que está disponível na MedRxiv – uma plataforma que publica manuscritos de artigos científicos da área da médica antes de serem submetidos a revisão – que foi desenvolvido por uma equipa de investigadores da qual Tanush Jagdish faz parte. O estudo, que foi liderado por Kate E. Zualauf, pretendia testar formas de descontaminação das N95 para que estes equipamentos pudessem ser reutilizados: “Para ser eficaz, a descontaminação deve resultar na esterilização do respirador da N95 sem prejuízo da filtração do respirador ou ajuste ao utilizador”, sublinham os investigadores.

“O ajuste e a função quantificados do respirador foram preservados, até depois de 20 ciclos sequenciais de descontaminação por vapor no micro-ondas”, concluem, indicando que “este método apresenta uma forma validada e efetiva de descontaminação e reutilização dos respiradores N95 pelos prestadores da linha de frente que enfrentam uma necessidade urgente”. No entanto, é importante reforçar que o artigo ainda carece de verificação e validação por parte da comunidade científica.

Mas será que podemos desinfetar as máscaras no micro-ondas? Para já, a resposta é não. Um artigo publicado pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) da Universidade Nova de Lisboa reconhece que atualmente existem “grupos que estudam métodos de esterilização para os diferentes tipos de máscaras consideradas equipamento de proteção individual (respiradores P1 ou máscaras cirúrgicas, P2 e P3)” e que “estão a ser incentivados a compartilhar os resultados logo que os obtenham”.

Todas as máscaras de utilização única deverão ser usadas apenas uma vez. “Mergulhar em álcool, micro-ondas, forno, coisas desse género, até podem matar o vírus, mas estragam a máscara, ou seja, tiram as características que o fabricante diz que ela tem”, esclarece ao Polígrafo Cláudia Conceição, médica, professora no IHMT e uma das autoras do texto.

As autoridades de saúde europeia e norte-americana mantém as recomendações de utilização única dos equipamentos de proteção individual. O Centro Europeu para o Controlo e Prevenção da Doença (ECDC) apresenta várias possibilidades de esterilização que foram consideradas – como o vapor ou o uso de radiação gama –, mas alerta para os riscos de deformação das máscaras e para a falta de equipamento necessário nos hospitais para proceder a este método. Também o centro norte-americano para o Controlo e Prevenção da Doença (CDC) reconhece a necessidade de prolongar a utilização das N95 e, por isso, lançou um guia técnico para maximizar a utilização destes equipamentos de proteção sem colocar em risco a saúde dos profissionais de saúde. Neste documento é identificado um conjunto de práticas que aumentam o tempo de utilização dos respiradores e para permitem reutilizá-los, mas não é identificada nenhuma forma de os higienizar ou esterilizar.

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créditos: Pixabay

Todas as máscaras de utilização única deverão ser usadas apenas uma vez. “Mergulhar em álcool, micro-ondas, forno, coisas desse género, até podem matar o vírus, mas estragam a máscara, ou seja, tiram as características que o fabricante diz que ela tem”, esclarece ao Polígrafo Cláudia Conceição, médica, professora no IHMT e uma das autoras do texto. A professora reconhece que existem problemas de escassez e questões ambientais associados à não reutilização das máscaras, mas alerta que usar mais do que uma vez um equipamento de utilização única tem riscos: “Se a máscara eventualmente foi contaminada, é um risco ela estar em casa porque pomos-lhe as mãos e depois vamos esfregar os olhos ou a boca. Esta utilização é incorreta”, explica.

Cláudia Conceição acrescenta ainda que os respiradores – como as N95 referidas no estudo, e os FFP2 e FFP3, segundo as normas europeias – são máscaras de proteção individual indicadas para quem está na linha da frente do combate à Covid-19, tal com os profissionais de saúde. Esta informação vem também vinculada nas diretrizes da Direção Geral da Saúde (DGS): este tipo de equipamento, assim como as máscaras cirúrgicas de tipo II e III, são indicadas para a utilização dos profissionais de saúde, enquanto aos profissionais em contacto frequente com o público é recomendada a utilização de máscaras cirúrgicas de tipo I e máscaras alternativas que tenham filtração mínima de 90%. A população em geral poderá utilizar máscaras de têxtil com filtração mínima de 70%, que são vulgarmente conhecidas como máscaras sociais e que, até ao momento, são os únicos modelos reutilizáveis.

Avaliação do Polígrafo:

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