A entrevista data de 3 de março e foi dada por Agostinho Marques (pneumologista e diretor clínico no Hospital Santa Isabel) a um jornal local do Marco de Canaveses. O médico sublinhou que a "corrida desenfreada" às máscaras não se justifica, uma vez que "a máscara apenas tem utilidade para as pessoas que já estão infetadas, como forma de evitar o contágio".

"Quem não está doente, não deve usar máscara. O que está a acontecer com a corrida desenfreada às máscaras é um ato tolo e inconveniente. A pessoa usa uma máscara, convencida de que está protegida e não está, arrisca-se a expor-se mais do que deve, porque é criada uma sensação de falsa segurança", declarou Agostinho Marques.

Verificação de factos.

As diretrizes da Direção-Geral da Saúde (DGS) relativamente ao uso de máscaras têm sido contraditórias. Numa publicação no Facebook, datada de 20 de março, a DGS sublinhou que "nem toda a gente deve usar máscara" e que só a deve usar "quem tem indicação médica para tal".

De acordo com a mesma entidade, apenas pessoas com doenças respiratórias, suspeitas de Covid-19, doentes imunossuprimidos e cuidadores de pessoas infetadas deveriam recorrer à sua utilização. Além disso, destacou que se deveria evitar o uso de máscaras de pano, uma vez que podiam "acumular resíduos ou até partículas infecciosas".

Contudo, no dia 13 de abril, foi publicado um novo documento da DGS - intitulado como "Covid-19: Fase de Mitigação - Uso de Máscaras na Comunidade" - que passou a recomendar o uso de máscaras pela população em geral. No respetivo texto pode ler-se que a DGS "alargou a recomendação da utilização de máscara cirúrgica, e outros equipamentos de proteção individual, a elementos de alguns grupos profissionais (...) quando não é possível manter uma distância de segurança entre pessoas".

Ou seja, trata-se principalmente de profissionais de atendimento ao público, profissionais de saúde, forças de segurança, etc.

Segundo a mesma publicação, "a eficácia da utilização generalizada de máscaras pela comunidade na prevenção da infeção não está provada". Ainda assim, indica-se que "perante a emergência de uma doença nova, a evidência vai evoluindo a cada momento e é afirmada num modelo colaborativo de experiências, antes do surgimento de evidência científica de maior rigor".

Indica-se também que "estudos recentes mostram que as máscaras cirúrgicas podem reduzir a deteção de RNA de coronavírus em aerossóis, com uma tendência para redução em gotículas respiratórias, sugerindo que as máscaras cirúrgicas podem prevenir a transmissão de coronavírus para o ambiente, a partir de pessoas sintomáticas, assintomáticas ou pré-sintomáticas".

Mais adiante sustenta-se então que "em linha com as recomendações da OMS e EDC", a utilização de máscaras deve ser considerada "por qualquer pessoa em espaços interiores fechados com múltiplas pessoas (supermercados, farmácias, lojas ou estabelecimentos comerciais, transportes públicos, etc.)", acrescentando-se que "é uma medida adicional de proteção" e que não se dispensam as regras de distanciamento social, etiqueta respiratória, higiene das mãos e utilização de barreiras físicas.

No dia 30 de abril, em entrevista à RTP, o primeiro-ministro António Costa anunciou que iriam ser aplicadas coimas a quem não utilize máscaras nos transportes públicos. De acordo com o Decreto-Lei 20/2020, que alterou "as medidas excecionais e temporárias relativas à pandemia da doença Covid-19", regula-se a obrigatoriedade do "uso de máscaras ou viseiras na utilização de transportes coletivos de passageiros", sublinhando que o seu incumprimento "constitui contra-ordenação, punida com coima" de valor mínimo de 120 euros e máximo de 350 euros.

Concluindo, segundo as diretrizes oficiais, é recomendado o uso de máscaras "por qualquer pessoa em espaços interiores fechados com múltiplas pessoas". Não está em causa a opinião emitida pelo referido pneumologista na entrevista de 3 de março, mas a replicação de partes dessa entrevista - sem indicação da data, nem contextualização ou referência às alterações entretanto implementadas pelas autoridades relativamente ao uso de máscaras - como forma de dissuadir a utilização de máscaras pela população em geral que, como já salientámos, passou a ser obrigatória em determinadas situações ou circunstâncias.

Nesse sentido, as publicações sob análise podem induzir em erro, na medida em que partilham esta entrevista de 3 de março como se fosse atual e ignorando as novas regras de obrigatoriedade de utilização de máscara (em determinadas situações e circunstâncias) decretadas pelas autoridades.

A classificação final deste artigo incide sobre as referidas publicações descontextualizadas nas redes sociais, não sobre a entrevista que foi publicada num jornal local e transmite as declarações do entrevistado.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente falso" nos sites de verificadores de factos.

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