Desde o início da pandemia que os profissionais de saúde estão na linha da frente do combate a uma doença sobre a qual ainda pouco se sabe. Têm sido recorrentes - sobretudo nos países mais afetados - os relatos de médicos, enfermeiros e outros profissionais que dizem estar física e emocionalmente desgastados. Em Portugal, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou este desafio de saúde pública como uma "guerra". Será que, à semelhança das guerras e catástrofes naturais, poderá causar stress pós-traumáticoburnout nos combatentes da primeira linha?

“Os estudos apontam que os profissionais de saúde neste tipo de situação possam vir a desenvolver mais stress pós-traumático”, confirma Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos, em declarações ao Polígrafo. Ressalvando, porém, que serão “uma pequena percentagem”.

“Independentemente do stress pós-traumático - que resulta de um trauma -, existem outros problemas de saúde que decorrem de um impacto psicológico das condições a que estão submetidos os profissionais de saúde neste trabalho que estão a desenvolver e que também tornam os profissionais de saúde numa população de especial risco, porque estão mais expostos a ansiogénicos”, sublinha Miranda Rodrigues.

“No caso dos profissionais de saúde, é expectável que, pela literacia em saúde e pelos conhecimentos especializados que muitos deles têm, consigam lidar melhor com os desafios mesmo ao nível do impacto psicológico que esta situação tem”, acrescenta. São estas técnicas que permitem aos profissionais de saúde proteger-se da ansiedade e do excesso de stress que vivem todos os dias. No entanto, Miranda Rodrigues salienta que na linha da frente existe “esmagadoramente” outro tipo de profissionais como assistentes e auxiliares que dão todo o apoio, mas “têm provavelmente menos literacia para lidar com a situação e menos fatores protetores”.

“Independentemente do stress pós-traumático - que resulta de um trauma -, existem outros problemas de saúde que decorrem de um impacto psicológico das condições a que estão submetidos os profissionais de saúde neste trabalho que estão a desenvolver e que também tornam os profissionais de saúde numa população de especial risco, porque estão mais expostos a ansiogénicos”, sublinha Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos.

A exposição a elevados níveis de stress durante muito tempo poderá fazer com que os profissionais de saúde ultrapassem os seus limites pessoais e deixem de conseguir gerir o seu estado emocional, o que traz consequências ao nível da saúde física e mental. “É isso que leva à exaustão. O burnout ou esgotamento é quando eu deixo de ter as capacidades para fazer face aos desafios. Eu fico tão desgastado que já não consigo. Como se tivesse gasto a minha energia”, explica o bastonário.

“A pessoa, ao deixar de ter estratégias para lidar com a ansiedade, também mais facilmente começa a fazer uma leitura de que não tem controlo sobre o que está a viver. Essas leituras de ‘não ter controlo’, ‘não ser capaz’, podem levar rapidamente a outras como ‘eu não sou suficientemente capaz, logo eu não sou suficientemente bom, logo eu não gosto assim tanto de mim’. Portanto podem levar a desvalorizações de auto-estima”, alerta.

Apesar das condições extremas que se vivem atualmente, o burnout já é um problema conhecido entre os profissionais de saúde. “Em condições normais, os profissionais de saúde são um grupo que, devido às funções que desempenha, já tem elevados níveis de mau-estar ocupacional como stress ocupacional, ansiedade e burnout”, destaca João Viseu, professor de psicologia e investigador no Centro de Investigação para o Turismo, Sustentabilidade de Bem Estar da Universidade do Algarve. Segundo um estudo publicado pela Ordem dos Médicos no dia 24 de maio de 2019 - num período em que o sistema de saúde não estava sobrecarregado -, 66% dos médicos inquiridos apresentava um elevado nível de exaustão emocional.

© Agência Lusa / EPA / Zoltan Balogh

“Além do aumento no número de horas trabalhadas, pode somar-se um incremento no stress e na ansiedade devido, por exemplo, aos inúmeros procedimentos que são necessários adotar para que se possa trabalhar em segurança”, acrescenta Viseu. “Há o receio de estar a trabalhar com o desconhecido, trata-se de uma doença totalmente nova, o que obriga os profissionais de saúde a estarem constantemente a aprender e a atualizar-se enquanto estão no terreno”, além do medo de contaminar os outros.

Muitos dos profissionais de saúde vivem com o receio de serem portadores assintomáticos da doença e de contagiar os colegas, os outros pacientes ou até os familiares, o que promove maiores níveis de ansiedade. Além disso, o afastamento social e isolamento praticado por muitos faz com que a rede de proteção social individual - que normalmente é composta pela família e amigos - se torne menos eficaz no combate ao stress.

“Não nos podemos esquecer que os profissionais de saúde são pessoas que, além de toda a carga de terem que lidar com a parte profissional, eles próprios estão separados da família, não podem contactar com os pais, muitas vezes não podem contactar com os filhos, às vezes estão a viver fora do seu ambiente. Todas essas situações poderão, em determinadas situações, tornar-se potencialmente traumáticas ou terem sido traumáticas, mesmo que as pessoas não as tenham registado como tal”, acrescenta o psicólogo.

Outro problema inerente a esta situação é que “os profissionais de saúde sujeitos a este tipo de fatores e em maior risco de stress e burnout são profissionais que também estão sujeitos a cometer mais erros”, alerta Miranda Rodrigues. Além disso, esta condição, quando num período prolongado, pode mesmo colocar o profissional de saúde em risco: “Como o stress está a libertar também substâncias no nosso organismo durante demasiado tempo, pode afetar alguns equilíbrios, pode até afetar o sistema imunitário e fazer com que haja maior permissividade e que o corpo não consiga combater certos invasores”, explica.

Este combate tem também impactos a longo prazo. “Muitos dos aspetos do stress pós-traumático ou das perturbações de ansiedade são manifestados um, dois ou três meses depois de toda a situação acontecer”, salienta Miranda Gomes. “Ou seja, durante algum tempo tivemos de lidar com uma situação de emergência e só depois é que vamos, de alguma forma, pagar a fatura de toda a economia psíquica”.

No sentido de ajudar a combater este estado de ansiedade “existem linhas de acompanhamento psicológico - como a linha do SNS24  - para garantir que durante este período ninguém fica desamparado”, conclui.
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