Um artigo publicado no Breitbart, famoso site de direita radical norte-americano criado pelo polémico Steve Bannon, um dos rincipais ideólogos de Donald Trump, entretanto afastado da Casa Branca, lançou o alerta no último dia do ano: em 2018 morreram mais de 41 milhões de crianças na sequência de um aborto. O número é impressionante, se tivermos em conta que se registaram 8,2 milhões de mortes decorrentes de cancro, por exemplo.

Citando dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Worldometers (um medidor em tempo real de estatísticas em diversas áreas, incluindo a mortalidade), o site noticia ainda que cerca de 23% de todas as gravidezes de 2018 resultaram num aborto. E que, por cada 33 bebés nascidos, 10 foram abortados. Estes dados, afirma o Breitbart – cuja notícia foi entretanto replicada em vários sites mundiais -, justificam que o aborto deva ser considerado a principal causa social dos tempos que correm.

O site norte-americano de fact-checking Snopes analisou o tema e concluiu, citando a mesma OMS, que o número de abortos realizados em todo o mundo pode ser mesmo superior ao anunciado pelo Breitbart. Em vez dos 41 milhões, pode ter-se situado em mais de 50 milhões, uma vez que os dados daquela organização apontam para um número de 56 milhões entre 2010 e 2014.

A acreditar nos números divulgados – e tudo indica que são verdadeiros, pecando eventualmente por escassez, o aborto originaria mais mortes do que as três principais causas de morte identificadas pela OMS: as doenças cardíacas, a trombose e a doença pulmonar obstrutiva crónica.

Em Portugal, como no resto do mundo, o aborto também não é reconhecido como causa de morte. Segundo a Pordata, as principais causas de morte em 2017 foram as doenças do aparelho circulatório (29,3%) e os tumores malignos (25,0%).

Há apenas um problema – que não é despiciendo – na análise do Breitbart: a OMS não reconhece o aborto como causa de morte. Aliás, nenhum organismo mundial de referência na área da saúde pública o faz – o que nos lança para o eterno debate sobre quando começa a vida, que marcou, por exemplo, a discussão em Portugal aquando do referendo sobre o aborto. A designação do aborto como causa de morte é, como tal, uma escolha política, fundamentalmente baseada na crença de que a vida humana começa no momento da concepção – uma visão que, até ao dia de hoje, não tem reflexos nas principais bases de dados de referência ao nível da mortalidade mundial.

Em Portugal, como no resto do mundo, o aborto também não é reconhecido como causa de morte. Segundo a Pordata, as principais causas de morte em 2017 foram as doenças do aparelho circulatório (29,3%) e os tumores malignos (25,0%).

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