"Água!", exclamou Cristiano Ronaldo logo no início da conferência de imprensa de antevisão da estreia da seleção portuguesa no Euro 2020. Momentos antes, o jogador tinha retirado duas garrafas de Coca-Cola que estavam junto dos microfones e substituiu-as por uma garrafa de água. O objetivo seria um apelo ao consumo de água, em detrimento de refrigerantes.

Em dezembro do ano passado, Cristiano Ronaldo falou sobre a educação dos filhos, especialmente no que se refere à alimentação. "Sou duro com ele [filho mais velho], por vezes, pois ele bebe refrigerantes e fico irritado com ele. Come batatas, fritos, coisas assim, e eu não gosto. Mesmo os mais pequenos, quando comem chocolate, olham logo para mim", afirmou.

Mas este gesto fez com que a Coca-Cola desvalorizasse 3,6 mil milhões de euros?

A informação circulou um pouco por todo o mundo, mas teve origem em Espanha. Segundo o jornal Marca, o gesto de Cristiano Ronaldo teve um impacto negativo na empresa, nomeadamente a desvalorização que terá provocado na bolsa de Wall Street, onde a Coca-Cola está cotada.

A queda teria custado cerca de quatro mil milhões de dólares. As ações caíram mais de 1% na segunda-feira e o momento negativo prolongou-se até ao dia seguinte.

Segundo a cotação de mercado da Coca-Cola, apresentada pelo "Wall Street Journal", a meio da tarde desta terça-feira, o valor das ações caiu para os 55,22 dólares, quando tinha terminado a semana passada nos 56,16 dólares por ação.

Contactado pelo Polígrafo, Filipe Garcia, analista da Informação de Mercados Financeiros (IMF), considera que "em rigor, é uma ficção dizer que o gesto do Ronaldo teve impacto na cotação do título".

"Na abertura do título, que foi às 14h30, isto é antes da conferência de imprensa, as ações já tinham um preço inferior ao do fecho de sexta-feira. A ação no dia 14, segunda-feira, entrava naquilo que tecnicamente se chama de 'ex-dividendo', ou seja, as ações detidas até dia 11, sexta-feira, davam direito a um dividendo de 42 cêntimos de dólar e aquelas que são adquiridas a partir de dia 14 ou detidas a partir de dia 14 já não dão direito a esse dividendo. Uma coisa muito comum que acontece em todas as bolsas. A cotação do título tende a ajustar imediatamente a essa distribuição de dividendo, porque num dia a ação dava direito a receber esses 42 cêntimos e no outro dia já não dá. Chama-se a isso o ajuste ex-dividendo", explica o especialista.

"O Cristiano Ronaldo fala às 14h43 e é percetível nos gráficos que já fui vendo que isso não tem qualquer impacto na cotação. Depois desse gesto não há qualquer variação significativa nas cotações e até no final do dia acaba por haver uma recuperação do título, relacionada com outros fatores", conclui Filipe Garcia.

Em resposta a Cristiano Ronaldo, a Coca-Cola afirmou ao "Daily Mail"que "aos jogadores é oferecida água, assim como Coca-Cola e Coca Zero, à chegada às nossas conferências de imprensa" e argumentou que "toda a gente tem direito às suas preferências no que se refere a bebidas".

Já a UEFA, citada pelo Expresso, garantiu que não seria possível "organizar um torneio com tanto sucesso para jogadores e adeptos, nem investir no futuro do futebol a todos os níveis" sem o apoio destas marcas. A organização enfatizou a parceria com a Coca-Cola, que tem sido "essencial" e que a marca disponibiliza "aos jogadores e treinadores uma variedade de bebidas nas conferências de imprensa" – não só refrigerantes, mas também água.

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Curiosamente, Paul Pogba, jogador da seleção francesa, teve esta terça-feira uma ação semelhante à do jogador português. Desta vez, a "vítima" foi uma garrafa de cerveja que, tal como as de Coca-Cola, foi retirada da mesa.

Em suma, não se pode fazer uma relação direta entre a desvalorização da Coca-Cola com o gesto de Cristiano Ronaldo. A queda no valor das ações dá-se ainda antes da conferência de imprensa e depois não existem variações significativas na cotação da empresa norte-americana.

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Avaliação do Polígrafo:

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