É um “alerta” que está a causar estranheza nas redes sociais: “Simulações de uma mega pandemia de varíola dos macacos foram feitas em 2021 com projeções de 3,2 mil milhões de casos e 271 milhões de mortos e com data de início em 15 de maio de 2022."

A acompanhar este texto surgem duas imagens: um artigo da “NTI Paper” com o título “Fortalecer os Sistemas Globais para Prevenir e Responder a Ameaças Biológicas de Alta-Consequência”, e um cronograma do desenvolvimento da suposta simulação.

Terá o alerta fundamento? E as imagens são autênticas?

De facto, as imagens presentes na publicação foram retiradas de um relatório real, mas não representam uma simulação. A Nuclear Threat Initiative (NTI), em parceria com a Conferência para a Segurança de Munique (MSC, na sigla inglesa), realizou um exercício de fictício em que usava um suposto surto de uma variante manipulada do vírus da varíola dos macacos para analisar a resposta dos países e das organizações internacionais a uma possível nova pandemia. O exercício foi realizado em março de 2021 e contou com a participação de 19 líderes e especialistas dos vários continentes. O relatório completo foi publicado em novembro do mesmo ano.

“Embora os líderes nacionais e globais estejam adequadamente focados nas necessidades imediatas da resposta à Covid-19, a comunidade internacional não pode adiar a implementação das medidas necessárias para proteger contra futuras ameaças biológicas.”

“A COVID-19 revelou que os governos nacionais e a comunidade internacional estão lamentavelmente impreparados para responder a pandemias – sublinhando a nossa vulnerabilidade partilhada para futuras ameaças biológicas catastróficas que podem atender ou exceder as graves consequências da atual pandemia”, pode ler-se no relatório. “Embora os líderes nacionais e globais estejam adequadamente focados nas necessidades imediatas da resposta à Covid-19, a comunidade internacional não pode adiar a implementação das medidas necessárias para proteger contra futuras ameaças biológicas.”

Este exercício de reflexão tinha por base um cenário fictício: “Apresentava uma pandemia global e mortal envolvendo uma variante incomum do vírus da varíola dos macacos que emergia na nação fictícia da Brinia e era foi espalhado globalmente durante 18 meses.” No decorrer do exercício, os especialistas ficavam a saber que o “surto inicial foi causado por um ataque terrorista usando um patogénico desenvolvido em laboratório”. No final, “a pandemia fictícia resultou em mais de três mil milhões de casos e 270 milhões de mortos em todo o mundo”.

Com este exercício, a NTI e a MSC identificaram um conjunto de limitações na resposta a uma nova pandemia, nomeadamente “fraca deteção, avaliação e alerta globais dos riscos pandémicos”, “lacunas na preparação a nível nacional”, “lacunas na governação da investigação biológica” e “financiamento insuficiente da preparação para pandemias”.

Segundo a calendarização apresentada no relatório, o ataque que provocou o primeiro surto aconteceria a 15 de maio de 2022 – uma data que coincide com o aparecimento dos primeiros casos de varíola dos macacos na Europa. A 5 de junho de 2022 haveria já 1.421 casos e quatro mortes. Sete meses depois, em janeiro de 2023, o número de casos identificado no exercício seria de 70 milhões, com 1,3 milhões de mortes. Esta variante fictícia da varíola dos macacos seria mais contagiosa do que as atualmente conhecidas.

Com este exercício, a NTI e a MSC identificaram um conjunto de limitações na resposta a uma nova pandemia, nomeadamente “fraca deteção, avaliação e alerta globais dos riscos pandémicos”, “lacunas na preparação a nível nacional”, “lacunas na governação da investigação biológica” e “financiamento insuficiente da preparação para pandemias”.

“O facto de vários países estarem a lidar atualmente com um surto de varíola dos macacos é puramente uma coincidência”.

Devido a publicações – como a que está em análise neste artigo – a NTI decidiu prestar esclarecimento sobre o assunto. Numa publicação de perguntas e respostas, a organização afirma que “o facto de vários países estarem a lidar atualmente com um surto de varíola dos macacos é puramente uma coincidência”. “A principal lição do nosso exercício não é o patógeno específico no nosso cenário fictício; é o facto de que o mundo está lamentavelmente impreparado para se proteger contra futuras pandemias e que é necessário tomar medidas urgentes para lidar com essa vulnerabilidade.”

A organização explicou ainda a razão para a escolha do vírus da varíola dos macacos para este exercício: “Queríamos selecionar um patógeno que se encaixasse plausivelmente no nosso cenário e escolhemos a varíola dos macacos entre várias opções indicadas pelos nossos especialistas. Um dos fatores foi selecionar um patógeno com características diferentes do vírus SARS-CoV-2, o que fez com que os participantes pudessem analisar questões que não foram identificadas na pandemia de Covid-19.”

Em suma, existiu um exercício fictício no ano passado que colocava como hipótese uma pandemia de varíola dos macacos a começar em maio de 2022. No entanto, a organização que realizou este exercício – cujo objetivo era identificar as falhas de preparação dos países e organizações internacionais perante uma nova pandemia – garante que o aparecimento de surtos em vários países é “puramente coincidência”.

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